Lendas de mouras encantadas em Amarante

Encenação da Lenda do Penedo da Moura, pelos Viajantes no Tempo, durante a Caminhada da Árvore (2016).

“As mouras encantadas, subentenda-se a Cultura Islâmica, encontraram na Cultura Cristã um campo fértil para o surgimento de fenómenos sobrenaturais, ainda presentes na memória colectiva, cujas origens remetem para a constituição da noção da nacionalidade portuguesa, indissociável da Conquista Cristã ou da dilatação das fronteiras meridionais de Portugal”.

O imaginário tradicional popular português está repleto de Lendas de Mouras encantadas, fenómeno que é abrangente a todo o território e que encontra paralelos na Galiza, facto que denuncia uma raiz cultural comum aos dois Povos do Ocidente Peninsular separados pelo Rio Minho. 

É também frequente verificar que algumas destas lendas de princesas mouras estão associadas a monumentos ou sítios arqueológicos como, por exemplo, dolmens, povoados, castelos, santuários, etc… 

Uma explicação plausível para este facto poderá ser a seguinte: para o entendimento comum (diga-se a sociedade não esclarecida anterior ao Séc. XVIII), um sítio arqueológico, o achado furtuito de objectos, a existência de ruinas ou a memória de determinado preceito ou ritual passado era, de certo modo, um local místico ou com um determinado pendor de sacralidade, dando azo à criação de mitos e lendas, muitos deles associados a mouras encantadas. 

As mouras encantadas, subentenda-se a Cultura Islâmica, encontraram na Cultura Cristã um campo fértil para o surgimento de fenómenos sobrenaturais, ainda presentes na memória colectiva, cujas origens remetem para a constituição da noção da nacionalidade portuguesa, indissociável da Conquista Cristã ou da dilatação das fronteiras meridionais de Portugal. 

Embora beligerantes, estas duas realidades peninsulares, de um lado um Norte Cristão e do outro um Sul Islâmico, contribuíram para um mútuo enriquecimento do ponto de vista cultural, técnico-científico, militar e socioeconómico. No entanto, também revelaram ódio, desprezo, desconhecimento e incompreensão, conotando quer uma quer outra com a prática de magias ou feitiçarias, condenáveis pelos cânones religiosos, mas que se vão disseminando clandestinamente pelas duas sociedades[1].

Os aspectos acima elencados irão ser absorvidos e perpectuados na tradição oral dos dois povos, em estórias ou lendas de princesas que, por alguma razão, se transformam em determinados animais e/ou ficam retidas numa realidade paralela, em penedos, bosques, fontes ou torres. São também frequentes, as referências a tesouros destinados a quem for suficientemente sagaz para conseguir quebrar o encantamento, o qual dever obedecer a determinados preceitos a cumprir de forma escrupulosa, caso contrário ficará também retido ou perecerá. Deve-se ainda ter presente que a etimologia da palavra moura é ambígua. Se aparentemente remete para o latim, maurus, isto é, os habitantes da Mauritânia, a mesma poderá derivar do termo proto-celta mrwomarwo que quer dizer morto, ou do grego moira (μοίρα), que significa destino. Por sua vez, as palavras celtas mori (mar), mori-morwen (sereias, ninfas ou ondinas) e mahra (espírito), poderão estar mais próximos da origem destas lendas que segundo alguns autores se aproximam da mitologia celta[2] e que na voragem dos tempos passaram a designar lendas de figuras femininas provenientes ou descendentes dos povos do Norte de África. 

Passemos de seguida às duas lendas de mouras encantadas conhecidas na Cidade de Amarante, uma de uma rainha (póstuma) e outra de uma princesa.

O Penedo da Rainha, que deu nome ao atual parque de campismo de Amarante

Lenda do Penedo da Rainha, Gatão

Na mata do Penedo da Rainha (3) (actual Parque de Campismo), existe um penedo que se destaca dos demais por se projectar sobre o Rio Tâmega. Nele consta a seguinte lenda:

 Ainda na altura do Condado de Portucale, um príncipe Galego desloca-se a Guimarães para fazer o convite aos condes para o seu casamento. Só que no regresso viu uma mourisca tão formosa que disse: «esta vai ter de ser a minha mulher! Não vou casar com outra». Segue viagem, mas envia um mensageiro ao rei para o informar da sua decisão de anular os esponsais com uma donzela de sangue real, prometida tempos antes.

Temendo a reacção do pai que iria demonstrar toda a sua raiva perante a ruptura do casamento e tudo o que ele representaria para o seu reino, procura um local onde se pudesse esconder com todo o seu séquito e aí namorar a rapariga. Esse lugar foi encontrado junto ao Tâmega, num penedo proeminente que se lança sobre o rio, e ali ficaram.

Entretanto, o mensageiro entrega a mensagem ao rei e este, como seria de esperar, manda o seu exército ao encalço do filho para o demover de tal decisão. Mas como o príncipe fora avisado a tempo e para evitar a humilhação de ambos e obstar a que a jovem fosse barbaramente torturada e morta, desgostoso e por amor, mata a rapariga e enterra-a debaixo do penedo onde se costumavam encontrar para namorar. 

Anos mais tarde, já rei regressa ao local e diz: «Este é o Penedo da Rainha», pois fora aí que deu sepultura à sua amada. Dizem aqueles que viram que no penedo, para além do corpo da jovem mourisca, está também enterrado o tesouro que era destinado para o seu dote. Dizem ainda que, às vezes, a rainha aparece no alto do penedo para contemplar o Rio Tâmega.

Lenda do Penedo da Moura de Fontelas (Cepelos, Lomba)

Associada a um proeminente penedo, localizado na parte mais elevada do Monte Fontelas e próximo à Casa e Quinta do mesmo nome.

Há muito tempo atrás, vivia no Castelo de Fontelas um rei mouro, com uma filha muito bela. Essa princesa apaixonou-se por um camponês das redondezas, mas como este não pertencia à religião Islâmica, o rei não permitia este namoro. Mesmo assim e sem que o pai soubesse, a princesa encontrava-se com o camponês às escondidas, até que, um dia, resolvem fugir. Pediram a alguns amigos que os ajudassem a construir um túnel para conseguirem a fuga sem o rei dar conta. 

Encenação da Lenda do Penedo da Moura, pelos Viajantes no Tempo, durante a Caminhada da Árvore, em 2016.

 Sendo o rei muito informado, descobre, por intermédio dos seus soldados espiões, o plano da filha e do seu amado e prepara uma armadilha. Apanhados em flagrante no momento da fuga, mata o camponês, mas ao chegar à filha e por ser sangue do seu sangue, leva-a para junto do Penedo de Fontelas, local onde os jovens enamorados se encontravam em segredo, dizendo-lhe que não a mataria, mas que a iria transformar numa cobra para rastejar sobre a terra para sempre. 

 No entanto, em todas as primeiras manhãs do mês de Junho, junto ao penedo aparece uma cobra que se transforma na bela princesa moura.”

Após a transcrição das lendas, pode-se constatar que ambas remetem para a Época Medieval, mais concretamente para os primórdios da portugalidade, aliás no caso do Penedo da Moura de Fontelas, para a época do início da Conquista Cristã e formação do Reino das Astúrias (em 718).  

 A Lenda do Penedo da Rainha desenvolve parte da sua acção no actual Monte da Rainha, mais concretamente a colina Este do Planalto de Pascoaes que termina no Rio Tâmega. Embora neste local não se conheçam indícios arqueológicos, na sua envolvente foi detectada uma propriedade agrícola de época romana, possivelmente uma villa, na qual apareceu uma ara dedicada ao deus Júpiter e não muito distante um povoado da Idade do Ferro, o Castro Ladário. Próximo, encontra-se ainda a Quinta de Pascoaes com a sua residência senhorial edificada na 2ª metade do Séc. XVII.    

Por sua vez, a lenda do Penedo da Moura de Fontelas está associada a uma estação arqueológica, o Monte Fontelas, que poderá, atendendo aos vestígios identificados, remeter para a Idade do Ferro (do Séc. VII a. C ao Séc. I a. C) e cuja ocupação terá perdurado até à Alta Idade Média (do Séc. V ao Séc. X). Em local próximo, pode ver-se a Casa de Fontelas, antigo Solar fundado no Séc. XVI, cabeça do Morgado de Fontelas. 

“(…) Outro elemento recorrente é a temática do amor proibido ou da normalidade social perturbada. Numa das lendas, constatamos a paixão de um camponês cristão para com uma princesa moura; na outra a de um príncipe cristão para com uma jovem mourisca. Em ambas as estórias, para além das diferenças culturais e religiosas, o principal motivo para que este amor não se materialize são os estatutos sociais de cada uma das personagens e das suas implicâncias para com os seus reinos. À vontade pessoal deveria prevalecer a vontade colectiva”. 

Da análise efectuada destaca-se um elemento, o penedo. Penedo este que se evidência na paisagem, o da Rainha, proeminente sobre o Rio Tâmega e o da Moura, no cume mais elevado do Monte Fontelas. A origem destas duas lendas e a sua ligação a dois penedos, poderá estar relacionada com as crenças e as vivências de duas comunidades de Galaicos (povo celta que habitava toda a região do Noroeste Peninsular) que as evidências arqueológicas detectam nas suas proximidades. Importa salientar que os celtas prestavam culto às suas divindades, ao ar livre, em bosques junto de carvalhos, sobre rochedos, fontes e rios, facto que poderá ter conferido uma certa sacralidade, perpectuada no tempo e por sucessivas gerações sob a forma de lenda, à semelhança do que sucede com outros locais em Portugal.   

Tudo leva a crer que antigas práticas rituais se convertem em lendas e costumes e que, por vezes, a Arqueologia consegue comprovar a sua ancestralidade ou atestar a presença humana, num determinado local. Há ainda casos de santuários cristãos que têm uma origem pagã, ou seja, de antigos espaços sagrados para celtas e romanos, que se converteram em lugares sagrados para os cristãos e assim perpectuaram a sua funcionalidade. Por vezes, estão-lhes associadas lendas, não tanto de mouras encantadas mas de santos. 

Outro elemento recorrente é a temática do amor proibido ou da normalidade social perturbada. Numa das lendas, constatamos a paixão de um camponês cristão para com uma princesa moura; na outra a de um príncipe cristão para com uma jovem mourisca. Em ambas as estórias, para além das diferenças culturais e religiosas, o principal motivo para que este amor não se materialize são os estatutos sociais de cada uma das personagens e das suas implicâncias para com os seus reinos. À vontade pessoal deveria prevalecer a vontade colectiva. 

Na lenda da Moura de Fontelas, à semelhança de outras, verifica-se o encantamento, levado a efeito pelo rei mouro, da princesa transformada em cobra (para respeitar designação mais popular, em vez da de serpente que é mais cientifica). 

Enquanto na cultura judaico-cristã, a serpente é um símbolo de pecado e do mal, nas antigas culturas pré-cristãs da Europa Ocidental, a serpente é um símbolo de renovação, fertilidade, sabedoria e saúde e, também, um símbolo feminino. 

Para as lendas, a serpente não será tão conotada como um ser maligno ou portador do mal, mas sim como um ser que causa temor e que, de certo modo, representa algum misticismo ou sincretismo. 

Como a serpente é um animal esquivo, que se esconde em covas e passa por entre fragas, adquire, segundo crenças ancestrais, a capacidade de estar em permanente contacto entre o mundo terreno e da humanidade e o mundo subterrâneo, do sobrenatural e das divindades.

Importa ainda referir que no processo de transformação, o rei mouro condena a filha a rastejar para sempre sobre a terra, ou seja, nesta e noutras lendas, para além da simbologia da serpente atrás mencionada, verifica-se ainda uma atitude de humilhação eterna, considerando a serpente como um animal inferior, em comparação com os demais seres da terra. Esta citação na presente lenda lembra a condenação, de Adão e Eva, proferida por Deus[4]à serpente após a mulher ter incentivado Adão a comer da maçã do Jardim do Éden. 


Pelo acima mencionado e à semelhança do que sucede com outros locais, os mitos e lendas galaico-portugueses estão grande parte das vezes associados a sítios arqueológicos e à Cultura Castreja. Pode-se auferir ainda que alguns destes mitos e lendas terão uma origem pré-romana, sustentada nos rituais e na mitologia celta.

O aprofundamento do conhecimento da Mitologia Celta e das suas práticas e preceitos poderá contribuir para um melhor conhecimento das religiões pré-romanas do Noroeste Peninsular e assim se poder atribuir uma origem. 

Contudo, só se conseguirão calcorrear estes caminhos da investigação se ainda se preservarem as lendas, muitas delas transmitidas oralmente de geração em geração, mas que agora importa registar e preservar sob a forma escrita, a fim de se perpectuar a Memória e a Identidade de uma comunidade. 

Notas:
(1) A magia e a feitiçaria eram práticas provenientes de algumas culturas ancestrais do Médio e Próximo Oriente que sobreviveram na semi-clandestinidade e que se disseminaram pelas duas realidades peninsulares medievais, reavivando ou fazendo perpectuar alguns preceitos das religiões pré-cristãs. 
(2) Sobretudo das entidades que habitavam ou se encontravam em bosques, rochedos, fontes, rios ou até no próprio mar.  
(3) Para a criação da presente versão foi solicitada a colaboração do Sr. António Pereira e do Sr. António Patrício que muito se agradece. 
(4) «Por teres feito isto, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre os animais selvagens. Rastejarás sobre o teu ventre, alimentar-te-ás de terra todos os dias da tua vida». Gn.3, 14.

Bibliografia
BRANDÃO; Abílio; Lendas de Mouras Encantadas in Revista Lusitana, Vol. XIV; Lisboa; Livraria Clássica Editora; 1911.
PERAFITA, Alexandre; A Mitologia dos Mouros; Amadora; Edições Gailivro; 2006.  
VASCOCELLOS, Laura; Contos da Mitologia Celta; Lisboa; Guimarães Editores; 2004.   

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