Alfredo Pinheiro: “António Pinto é o maior atleta branco de sempre!”

Alfredo Pinheiro, professor de Educação Física na Secundária de Amarante e treinador de atletismo, tem o seu nome ligado a algumas das melhores marcas do fundo e meio fundo portugueses e europeus, por via dos resultados obtidos por atletas que treinou ou ainda treina. Ao todo, oito atletas internacionais, o que é inédito para um treinador que nunca teve ligação a qualquer clube e que vive na província, em Amarante. Capa da nossa edição em papel nr. 37 (inverno 2020) republicamos, agora, na edição online de AMARANTE MAGAZINE, a entrevista que nos concedeu.

Não há outro caso de um treinador sem clube com este palmarés. “Pois, é verdade”, diz Alfredo Pinheiro. “Mas a minha maior tristeza, hoje, é que nem os meus alunos conhecem o currículo do seu professor enquanto treinador. Jamais serei eu a dizer-lhes, mas incomoda-me a falta de informação que existe em Amarante”, acrescenta.

Com Licenciatura em Educação Física, concluída na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em 1992, Alfredo Pinheiro treinou, até hoje, os internacionais  António Pinto, Paulo Catarino, João Lopes, Rui Teixeira, Nuno Costa (estes dois últimos ainda treina) e três atletas femininas juniores do pequeno CDC Codessos, de Paços de Ferreira, num desafio que aceitou e ganhou, levando-as a bicampeãs nacionais de corta-mato e a medalha de bronze na Taça dos Clubes Campeões Europeus de corta-mato em Istambul.

O momento referência da sua carreira de treinador teve-o em 1997, na Maratona de Londres, com a vitória de António Pinto, “numa corrida épica”, recorda, em que o atleta, depois de, aos 35 quilómetros, ter caído para o oitavo lugar, veio a vencer, fazendo 2h7m55s, batendo o record da prova que era de 2h08m16s, de Steve Jones. “Londres é o topo da maratona, é a melhor do mundo. Está como a Volta à França para o ciclismo”, afirma Alfredo Pinheiro. “Para os atletas, é muito mais importante ganhar a Maratona de Londres do que conquistar uma medalha nos jogos olímpicos”, realça.

António Pinto viria, mais tarde, a estabelecer o record europeu da maratona em 2h6m36s. O atleta deixou a competição em 2003, mas este tempo apenas foi batido há um ano. O novo recordista europeu é, agora, Sondre Moen, atleta norueguês com a marca de 2h05m47s.

Mas Alfredo Pinheiro não tem dúvidas: “António Pinto é o maior atleta branco de sempre”, disse em entrevista que concedeu a AMARANTE MAGAZINE. “A categoria de um atleta mede-se pelos tempos que consegue. Os resultados dele, em pista, nas distâncias de 1.500 metros, 3.000, 5.000 e 10.000, na meia-maratona e na maratona, dizem-no. Não há outro atleta branco que tenha um conjunto de resultados equivalente”.

Com 54 anos, Alfredo Pinheiro dedicou a maior parte da sua vida ao atletismo. Ainda na Faculdade, já treinava dois atletas “com algum prestígio regional” e nunca mais parou. Com a exceção de dois anos em que precisou de retribuir à família tempo que lhe havia tirado, explicou.

Três dos seus melhores atletas começaram as suas carreiras em Amarante, mas o nosso entrevistado não tem ilusões: “hoje, não existem na nossa terra jovens com ambição no atletismo. Dou colaboração à ADA (Associação Desportiva de Amarante) no treino de alguns miúdos, mas não há ninguém a destacar-se e com garra para vir a ser atleta de nível elevado. O atletismo é, para a generalidade, um hobby, estando os miúdos focados noutros interesses, para além de que ser atleta implica ter grande capacidade de sofrimento. Os treinos são muito exigentes e bi-diários, independentemente das condições atmosféricas. Não há estado do tempo, só há hora: o primeiro treino é de manhã e começa às nove. O segundo tem início às seis da tarde”, diz perentório.

Depois, considera Alfredo Pinheiro, nas últimas duas décadas houve grandes mudanças nas famílias em termos sócio-económicos. E recorda que “os grandes atletas provêm das classes mais desfavorecidas. No caso português, a quase totalidade dos atletas que singraram no fundo e meio fundo, fossem masculinos ou femininos, tiveram origens muito humildes. A exceção será o Paulo Guerra, cujo pai foi Presidente da Câmara de Barrancos e terá tido uma origem sócio-económica favorável. Não me lembro de outro. A explicação estará no facto de terem visto no desporto a oportunidade de se afirmarem e fugirem às dificuldades que tinham em casa”.

Fazedor de campeões

A sua carreira de treinador começou era ainda estudante.
Sim, estava a estudar na UTAD, ainda não tinha acabado a licenciatura. Fui contactado por dois atletas de Vila Real, que não conhecia, pelo que lhes devo ter sido indicado por alguém. Conseguimos resultados interessantes.

O treino era, já, um dos seus interesses enquanto estudante?
Sempre tive uma paixão muito grande pelo atletismo, fiz muitas corridas enquanto jovem. E tive a sorte de, durante cinco anos, ter sido aluno do Professor André Costa, que era especialista em treino e desenvolvia investigação na área. Era, à altura, o mais creditado dos formadores de treinadores.

E sem que tivesse, ainda, currículo relevante como treinador, o António Pinto convidou-o para o orientar. Ficou surpreendido?
Muito surpreendido, ao ponto de essa ideia me parecer completamente fantasmagórica. Estávamos em 1996 e ele visitou-me em minha casa, como de resto fazia muitas vezes. A dada altura disse-me que queria que eu o treinasse, a ele, que já era um atleta de nível mundial. Já tinha vencido a maratona de Londres, em 1992, e, por exemplo, tinha sido segundo nas maratonas de Berlim e de Tóquio. Éramos amigos, eu tinha seguido toda a carreira dele no FC Porto, no Benfica e no Maratona, falávamos regularmente, mas não estava à espera de um convite daqueles. Como é que eu vou treinar um atleta com a tua categoria, o teu prestígio, nem penses, disse-lhe.

Mas acabou por se deixar convencer.
Ele disse-me que a resposta só podia ser uma, que estava decidido, independentemente dos meus argumentos. E veja, estávamos a poucos meses dos Jogos Olímpicos de Atlanta. Esta conversa foi em abril e os jogos eram em agosto… Pedi-lhe tempo para pensar e que voltaríamos a falar. Imagine a responsabilidade que é pegar num atleta de renome mundial, a quatro meses dos Jogos Olímpicos. Nessa altura o António Pinto era já o único atleta no mundo que tinha feito quatro maratonas consecutivas abaixo de duas horas e nove minutos. Correr maratonas na casa das duas oito era uma referência, um feito extraordinário. Ainda hoje acho que foi o maior desafio da minha vida.

Quais eram os objetivos do António Pinto para Atlanta?
Ele nunca me disse que queria lutar por uma medalha. Era muito pragmático e o que dizia era que queria fazer o melhor possível. Terminou em 13º lugar. Em geral, em Portugal e até no mundo, dá-se uma importância muito grande aos jogos olímpicos. Mas, isso é para quem vê atletismo uma vez de quatro em quatro anos. Quem está no meio, quem entende verdadeiramente de atletismo, sabe que a importância dos jogos olímpicos deve ser relativizada e que nunca serão a competição mais importante da vida dos atletas, principalmente dos maratonistas.

De facto, não é essa a ideia que se tem.
A maratona dos jogos olímpicos é quase sempre muito contingente. Porquê? Desde logo porque acontece no verão. E de verão não se correm maratonas. Deveria ser proibido fazer maratonas no verão, com temperaturas altíssimas e, ainda por cima, com percursos péssimos. Geralmente, nas cidades onde decorrem os jogos olímpicos não é possível desenhar percursos, no mínimo, razoáveis para maratonas. Há sempre muitas subidas, descidas… E os bons atletas, “os topos de gama” estão destinados a correr em percursos planos. E com bom tempo. É um pouco como se se pusesse carros de Formula 1 a fazerem provas de rali, a correrem em troços de terra. Depois, os Jogos Olímpicos não deveriam ter a prova da maratona, que, em termos de calendário, idealmente se deve realizar em abril ou novembro, nunca no verão. E em percursos corretamente desenhados.

Começou, então, a treinar o António Pinto.
Sim. E deixe-me dizer-lhe que o treinador pessoal de um atleta é tudo para ele. Nas modalidades coletivas há entreajuda, a falha de um atleta é compensada com a melhor forma de outro… No atletismo, quando se corre apenas consigo mesmo e a sua vida depende da atividade, cria-se uma responsabilidade enorme no treinador. O atleta, para conseguir resultados, tem que ter a cabeça livre de preocupações e o treinador é, literalmente, tudo: amigo, confidente, conselheiro, cúmplice.

Tendo em conta o perfil do atleta, concebeu um plano de treino muito exigente para o António Pinto?
O treino no atletismo é muito simples: correr intensivamente todos os dias, de manhã e de tarde. As pessoas imaginam coisas mirabolantes em termos médicos, de alimentação, de acompanhamento, mas não é assim. Quanto melhor é o atleta, menos necessidade tem de receber cuidados especiais de massagens, de fisioterapia, de ter um nutricionista que lhe defina a alimentação, um médico que o acompanhe… Isso é para os fracos, os fracos é que precisam disso. Defini um plano global para o António que, em termos alimentares, passava por uma dieta variada, que continha os ingredientes necessários para as suas performances, algumas vitaminas de venda livre e, de verão, com o calor, a toma de sais minerais, duas massagens por semana e basta.

Parece simples, de facto. O António Pinto nunca fez, por exemplo, treino em altitude?
Não. Chegamos a equacionar fazer uma experiência em altitude, em Font Romeo, mas não avançámos. O António era muito agarrado ao seu dia a dia, ao que era dele, às suas rotinas e não gostava de estar muito tempo fora de casa. A verdade é que o treino em altitude não se traduz numa componente importante para o bem-estar físico dos atletas. O que acontece é que, como em altitude o oxigénio é rarefeito, o treino é, por isso, dificultado, mas como há menos oxigénio a resposta do nosso organismo é aumentar a produção de glóbulos vermelhos, o que ajuda nas provas de resistência, como a maratona.

E com o Alfredo Pinheiro como treinador, o António Pinto continuou a ganhar e melhorou substancialmente o seu desempenho.
Em que é que o António Pinto melhorou? Melhorou em tudo! Não é imodéstia da minha parte, os resultados existem, falam por si. Melhorou na pista, tendo conseguido melhores marcas em todas as distâncias. Era já um maratonista assumido, mas fez um excelente registo nos 1 500 metros e nos 5 000 metros, tendo conseguido, em Zurique, em 1998, o record nacional nesta distância e sido campeão europeu dos 10 000 metros, numa corrida extraordinária em Budapeste; em 1999 estabeleceu o record europeu dos 10 000 metros, em Estocolmo, e, em 2000, o recorde europeu da maratona em Londres.

Menos de um ano depois de o começar a treinar, ele venceu a Maratona de Londres.
Exatamente, em 1997. Foi uma corrida épica, magnífica, que ainda ontem revi no Youtube. A certa altura, aos 35 quilómetros, o Pinto tinha a corrida perdida. Havia descolado do grupo da frente, onde ía, caíu para sétimo e depois oitavo. A determinado momento, por força de um daqueles cliques inexplicáveis, aumenta a velocidade, passa um adversário, passa outro, mais outro… O narrador da prova fica atónito, dá conta da sua recuperação, usando expressões como “foguete”, “míssil”, o António passa o atleta que vai em terceiro, o segundo e fica colado ao primeiro, a 500 metros da meta. Ultrapassa-o e ganha a corrida. Fez 2 horas, 7 minutos e 55 segundos, bateu o record da Maratona de Londres, mas, curiosamente, a preocupação do narrador era saber em quanto tempo tinha feito os últimos cinco quilómetros.

O António Pinto terminou a carreira em 2003, mas, ainda hoje, é uma referência do atletismo mundial.
O António Pinto é o maior atleta branco de sempre. A categoria de um atleta mede-se pelos tempos que consegue. Os resultados dele em pista, nas distâncias de 1 500 metros, 3 000, 5 000, 10 000, meia maratona e maratona, dizem-no. Não há outro atleta branco que tenha um conjunto de resultados equivalente.

“O Rui Teixeira tem resultados magníficos”

O Paulo Catarino foi outro dos grandes atletas que treinou.
Outro atleta magnífico, fortíssimo, quase ao mesmo nível do António Pinto em corrida de estrada. Entre 1997 e 2004, também nós, em Portugal, fomos invadidos por atletas quenianos. Manageres (empresários) portugueses arranjavam-lhes contratos e corridas e iam rodando: tinham cá quatro ou cinco, a seguir mandavam-nos embora e traziam outros… O Paulo Catarino era, por assim dizer, o terror dos quenianos, sendo o único que lhes fazia oposição. Ganhou a S. Silvestre do Porto, além de outos pódios, ganhou umas vezes e conseguiu outros excelentes resultados na Corrida der S. João, que chegou a ser uma prova muito bem cotada a nível internacional.

Já não é?
Hoje já não há provas do nível que a Corrida de S. João teve e o atletismo está estrangulado. As provas passaram a ser organizadas por empresários, para quem o que conta é o lucro e, então, fazem corridas com 10 ou 15 mil pagantes, sendo que no fim atribuem prémios de 500 e 600 euros. De resto, o atletismo em Portugal está em baixo também por isso, já que é muito difícil um atleta, por muito bom que seja, viver da atividade.

Também treinou o João Lopes.
Sim, um atleta muito bom, da Póvoa do varzim, também internacional com excelentes resultados. E estive envolvido num projeto muito bonito, que ainda hoje recordo com grande nostalgia. Um dia, fui procurado pelo Presidente de um clube que não conhecia, um clube pequeno, de bairro, o CDC Codessos que queria à viva força que eu fosse treinar o Clube. Fui conhecê-lo, vi que havia ali gente muito interessada, com instalações muito humildes, mas limpinhas, com organização e pensei: porque não? Vamos experimentar. No primeiro ano, as atletas do CDC Codessos foram campeãs nacionais de juvenis de corta mato, e, nos dois anos seguintes, sagraram-se campeãs nacionais de juniores. Isso deu-lhes direito a disputar a Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta Mato, que, nesse ano, foi em Istambul, de onde viemos com o terceiro lugar. Um feito enorme para um clube tão pequenino, como era o Codessos.

Atualmente, treina dois atletas de Amarante: o Rui Teixeira e o Nuno Costa.
Não têm os resultados do António Pinto, mas eu estou convencido de que o Pinto, hoje, teria mais dificuldade em conseguir os resultados que conseguiu. Os atletas africanos são de uma diferença enorme em relação aos europeus. As suas características fisiológicas são substancialmente melhores. A grande diferença está no tamanho da perna, sendo que a distância do joelho ao pé é maior do que nos atletas europeus, e esse facto cria neles outras condições para a corrida.

Mas as vitórias que vão conseguindo nem sempre se devem a esse facto.
Não podemos acusar ninguém, mas também é verdade que, ultimamente, eles têm sido apanhados em catadupa e vários já tiveram que devolver medalhas. E as suas carreiras duram dois, três anos, até porque como são muitos, é fácil os empresários substituirem uns por outros.

Mas voltemos ao Rui Teixeira
Os resultados dele são magníficos. Nos dois últimos anos foi Campeão Nacional de Corta-Mato. Para que conste, em Portugal há apenas uma prova, que é o Campeonato Nacional de Corta-Mato. É a única onde todos os atletas estão presentes. Tudo o que é fundistas está ali. É no Campeonato Nacional de Corta Mato que os atletas conseguem os contratos. Os clubes pagam-lhes 11 meses para eles fazerem uma única prova. E é esta prova que habilita os clubes e os atletas a participarem na Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato. Estas são as duas únicas provas que contam para os clubes, são as que dão taças e, consequentemente, prestígio. O Nuno Costa foi Campeão Nacional de Corta Mato de juvenis; campeão nacional durante os seus dois anos de júnior; foi, três anos consecutivos, campeão nacional de sub-23 e, já sénior, fez o oitavo lugar.

“Hoje, as motivações dos jovens não passam pelo atletismo”

Como é que elabora o calendário dos seus atletas?
Primeiro define-se um objetivo e depois anda-se para trás. O objetivo é o Campeonato Nacional de Corta Mato, que se realiza em Março, e em função do qual é feita a preparação e a escolha pontual das provas em que se vai participar, para se ir construindo a forma desportiva do atleta, cuidando de que chegue a março na melhor condição possível.

Os atletas que treina contactam muito com os clubes a que pertencem?
Pouco, embora existam reuniões no início da época no sentido de se definir a calendarização competitiva e os estágios de preparação. No entanto, o Sporting quer uma coisa: é que o Rui chegue ao Campeonato Nacional de Corta-Mato e obtenha um bom desempenho, ou seja um lugar no pódio.

Com a carreira que conseguiu ter, o Alfredo Pinheiro é, hoje, um treinador realizado?
Sim, sou um treinador realizado pelo que consegui com os atletas que treinei. Não treino mais atletas porque não quero, porque, como já disse, o treinador é o responsável pela vida dos atletas. Pela vida, não é pelo treino. Se eles vivem do atletismo, se têm aí o seu ganha-pão, então o treinador é o responsável pelas suas vidas, que depende dos resultados que conseguirem. Tenho dito não a muitos convites, até porque me envolvo muito com as pessoas e preciso de tranquilidade. Nada de ambições desmesuradas.

O atletismo tem-lhe deixado tempo suficiente para a sua vida privada, para a família?
Houve uma altura em que eu estava a dever tempo à minha família e decidi parar. Falei com o Rui Teixeira e com o Nuno Costa, expliquei-lhes a situação e decidi parar. Estive dois anos fora do atletismo, completamente fora. Ainda que as coisas sejam conciliáveis, porque o atleta é que corre e treina, seguindo as indicações do treinador, que não precisa de estar presente em todos os treinos.

Não corre com eles?
Então não corro!… Muitas vezes entro em corridas para os acompanhar e aconselhar. Se a prova tem duas voltas, faço uma e dou indicações; há provas em que saio do percurso e entro mais à frente… Gosto muito de estar com os meus atletas, de os acompanhar, de os incentivar. Recordo-me de um caso com o Nuno Costa que, num Grande Prémio de S. Pedro, na Póvoa do Varzim, ia em segundo, a 100 metros da meta. Eu estava lá, gritei-lhe, dei-lhe um berro e ele como que acordou: aumentou o ritmo e ganhou a prova.

Amarante já teve uma dinâmica interessante na dinamização do atletismo. Hoje parece não ter. É mesmo assim?
Sou professor, lido diariamente com jovens e, do que lhes conheço, eles têm motivações que não passam pelo atletismo. Eles sabem fazer coisas que nós nunca conseguiríamos e não têm as predisposições que nós tivemos. Os jovens de hoje têm visões do mundo completamente diferentes das nossas e têm pouca motivação para a prática de desporto, designadamente para o atletismo. O desporto escolar consegue motivar alguns, mas poucos. Enquanto professor de Educação Física e Desporto, vejo-me e desespero para, na véspera das competições, reunir o número mínimo de atletas para a constituição das equipas. Na altura em que apareceu o António Pinto, não era assim. As solicitações eram menores. E, naquele tempo, as privações por que os jovens passavam davam-lhes uma motivação extraordinária para superarem as dificuldades que viviam. Hoje, parece não haver dificuldades, logo para que esforçarem-se? Os atletas têm que se levantar cedo para treinar, faça sol, ou chuva, esteja calor ou frio.

O episódio mais marcante da sua carreira foi mesmo o da vitória do António Pinto na Maratona de Londres, em 1997?
Foi. Era a minha prova de fogo como seu treinador, estava a ver a corrida pela televisão, triste, desiludido, desolado, mesmo, sentado ao lado do empresário dele. Ambos sabíamos o empenho que o Pinto tinha posto naquela prova, o trabalho que teve na sua preparação. Não estávamos a ver uma prova qualquer, tratava-se da melhor e da mais importante corrida do mundo. Na noite anterior, o António Pinto queixava-se muito, dizia-se molengão, com muitas dores nas pernas… E eu confesso que estava todo contente, já que sabia que isso significava que ele estava no máximo da forma. E a verdade é que logo no início da corrida ele foi para a frente, num grupo de 10, 15 atletas e ali se manteve até à meia (maratona), aos 30 quilómetros, sendo que aos 35 começa a descolar, a descolar… A minha preocupação era que ele fizesse um tempo, pelo menos, na casa das ‘duas oito’ (2:08:00), o que, para um treinador novo, já era muito bom. Mas estava difícil, porque a determinada altura tinha caído para sétimo ou oitavo. Eis senão quando, por um qualquer clique inexplicável, o António Pinto aumenta a passada, ultrapassa o atleta que vai à sua frente, depois o seguinte, as câmaras da televisão fixam-se nele, o locutor, tal como nós, empolga-se, vendo que, um a um, ele vai deixando para trás os atletas de quem havia descolado, faltava correr cerca de dois quilómetros, o empresário gritava, dizendo que ele ainda ía ao pódio, a meta ficava cada vez mais perto e, imparável, o Pinto corta-a em primeiro lugar! Foi fantástico.

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