Em Ansiães: que viva a Tuna

Em princípios do séc. XX proliferavam, um pouco por todo o país, centenas de tunas ou “sol e dós”, grupos musicais populares onde prevaleciam os instrumentos de sopro e corda dedilhada.

Herdeiras dos goliardos clericais da idade média e, mais tarde, dos seus equivalentes estudantis, as tunas nascem de um processo evolutivo da música portuguesa popular que dá acesso ao povo, pela primeira vez, a um reportório musical, instrumentos e estilos associados ao conceito da “música baixa” (nas imagens, a Tuna de Ansiães).

Em particular nos meios rurais, as tunas e outros grupos musicais tradicionais foram, durante muitas das décadas seguintes, um elemento essencial na animação de eventos lúdicos, religiosos e sociais das suas comunidades.

Nas serras do Marão e Alvão, as primeiras tunas organizaram-se, formalmente e de forma muito entusiástica, em finais da segunda década do séc. XX. Praticamente todos os povoados tinham a sua própria tuna, que rapidamente se tornou na “banda musical da aldeia”.

Segundo o estudo elaborado por José Alberto Sardinha, autor do livro “Tunas do Marão”, os lugares de Eido e Casal, em Ansiães, tinham ambos a sua própria tuna, com uma possibilidade de existir uma terceira, no Peso.

“Não havia domingo ou dia de feriado sem a atuação das respetivas tunas”, revelou a AMARANTE MAGAZINE (AM) António Brandão, atual presidente da Junta de Freguesia de Ansiães.

O autarca contou que havia grande rivalidade artística entre ambos os grupos e que “o grau de superioridade se media pelo número de participantes em cada sala, eira ou terraço”.

Por volta dos finais dos anos 30, ambos os grupos entraram em declínio, principalmente por falta de músicos. No que se viria a tornar num evento cíclico nesta região, pois muitos dos elementos das tunas abandonavam a terra em busca de melhores oportunidades de trabalho, nomeadamente nas minas da região Norte e no Brasil, entre outros destinos.

Por consequência, em 1938, os músicos restantes puseram de parte as rivalidades e decidiram unir-se numa só entidade, dando origem a uma única tuna de Ansiães.

Ao longo das seguintes décadas, este agrupamento abrilhantou – e conta-se que de forma entusiástica – o panorama musical das aldeias de serra. A sua presença era praticamente indispensável em todo o tipo de eventos, nomeadamente em peças de teatro, casamentos, festas e bailes, no “Junho” de Amarante e até nas serenatas às “moças” da aldeia, a pedido de pretendentes.

Apesar do sucesso e da grande paixão que as gentes de Ansiães nutriam pela sua tuna (e ainda nutrem, hoje em dia), a verdade é que a realidade socioeconómica da região afetou, mais uma vez, o agrupamento musical. Em finais dos anos 70, muitos dos elementos já teriam dispersado para fora da região e o número de atuações diminuiu a uns poucos bailes locais.

O RENASCIMENTO DOS ANOS OITENTA.Em 1988, pela mão do então presidente da Junta de Freguesia, Armando Carvalho, o grupo regista-se formalmente como uma associação cultural e adota a designação de Tuna de São Paio de Ansiães.

O projeto idealizado pelo então autarca e descendente de Augusto Carvalho, seu pai e antigo tocador de violão, nasceu de uma vontade de honrar as pessoas que se dedicaram, ao longo de décadas, à tuna.

“Foi uma coisa espontânea, mas derivou mais do facto que pretendia honrar o meu pai e os tocadores mais velhos”, explicou o ex-autarca, à AM. Para além dos “antigos” que ainda restavam, a tuna renascia com “sangue novo” graças a um esforço em atrair e formar novos talentos.

Com o próprio Armando Carvalho como diretor musical, a tuna reingressou na vida cultural da região, atuando em casamentos, procissões e festas da freguesia. Contam-se, ainda, deslocações fora de portas, nomeadamente a França e à Expo 98, em Lisboa.

Ao reportório antigo, o agrupamento musical adiciona novas composições, mais modernas e recupera material da própria tuna, nomeadamente do tocador de violino Manuel Carvalho e do venerável Orestes Miranda, fundador da extinta Tuna do Eido, compositor e, em tempos, regente da Filarmónica de Amarante.


HOJE FALTA GENTE, SOBRETUDO, MAS TAMBÉM APOIOS.
Apesar do grande esforço que se tem realizado em Ansiães, a verdade é que o êxodo populacional afetou e continua a afetar a (rica) vertente cultural da região. Falta – explicou Armando Carvalho – gente para ingressar na tuna, particularmente “quem possa formar novos músicos”.

“É um problema que sentimos na área dos instrumentos de sopro, sobretudo “, adianta o diretor musical. E exemplifica: “Até há alguns anos era o mestre da Tuna de Carvalhais (Santa Marta de Penaguião), tocador de clarinete, que nos apoiava na formação de sopro, mas, por motivos profissionais, emigrou.”

Aqui revela-se um outro problema: com falta de talento, as tunas do Marão têm que se apoiar mutuamente para colmatar as lacunas. Atualmente, há vários músicos provenientes doutros concelhos do Marão e Alvão a atuar na Tuna de São Paio de Ansiães.

“Ora, isto não pode ser feito de forma gratuita, temos que pagar aos músicos que aqui se deslocam”, adianta Armando Carvalho. E acrescenta: “Ofertas para atuar há muitas e até em grandes eventos, mas quando apresentamos orçamentos a maioria dos organizadores desiste”.


TUNAS CANDIDATAS AO INVENTÁRIO NACIONAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL. Das várias dezenas de tunas que atuavam no Marão e Alvão, a meio do século XX, hoje restam apenas seis: Campeã (Vila Real), Ansiães (Amarante), Bisalhães (Vila Real), Carvalhais e Soutelo (Santa Marta de Penaguião) e Ermelo (Mondim de Basto).

Nos últimos quatro anos, esta “meia-dúzia” tem-se reunido, uma vez por ano, num encontro promovido pela Associação Arquivo de Memórias em parceria com os municípios de Amarante, Vila Real, Santa Marta de Penaguião e Mondim de Basto. O projeto pretende, entre outros fins, inscrever as tunas rurais do Marão e Alvão no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

O certame, que foi realizado em Amarante, em 2018 e no ano passado em Mondim de Basto, serve, acima de tudo, como um espaço de reflexão e para manter acesa a chama das tunas que ainda resistem.

“O projeto é da maior importância e penso ser o melhor caminho para a preservação das tunas rurais da região”, defende António Brandão. E acrescenta: “Apesar de todas as dificuldades, como a capacidade de renovação e atração de juventude para o seio do grupo, a Tuna de Ansiães é muito importante e acarinhada na sua terra. Por norma, ano após ano, fazem a abertura das tradicionais festas de agosto, em honra de Nossa Senhora de Moreira, e continuam a encher o recinto não só com residentes, mas sobretudo com os nossos emigrantes que nos visitam a cada ano, simbolizando o mais profundo amor e reconhecimento da importância da tuna”.

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