“São Gonçalo da corda” ou a vida por um fio?

São Gonçalo da corda.

Este ano não haverá “Festas de Junho”. Mas nem por isso São Gonçalo deixará de ser lembrado e celebrado. É isso que fazemos com a republicação deste texto do Padre Amaro Gonçalo, inicialmente publicado na edição em papel de AMARANTE MAGAZINE.

Um certo devoto, em desespero de causa, puxou a corda do São Gonçalo, com tal veemência, que o arrastou do seu pedestal, para o chão. O tombo não foi, de todo, fatal. Mas causou danos reparáveis ao conhecido «São Gonçalo da corda». A imagem foi já restaurada e «vestida» a preceito, como se vê pela fotografia. O facto, quase anedótico, merece-nos alguma reflexão. 

Para que serve a corda?

Esta é, de facto, a imagem mais antiga, que temos de São Gonçalo, datada provavelmente dos séc. XVI – XVII. Esteve, por muitos anos, colocada no altar onde hoje se encontra a moderna imagem de São Gonçalo, com o hábito dominicano. 

Esta imagem é constituída por um tronco único de madeira. Chegou a ser revestida a prata, metal que entretanto foi decepado da imagem, por altura das invasões franceses. 

Esta era a imagem que ia nas antigas procissões. E para facilitar o contacto com o São Gonçalo, dela pendia uma pequena corda, que as pessoas tocavam, mas sem puxar. 

Hoje, exposta na sacristia, a imagem deve ser venerada, com um simples olhar e uma prece. Para a preservar, é conveniente não lhe tocar e muito menos puxar a corda, a ponto de tirar o santo “do sério”!

Quando a «imaginação é a louca da casa»

Segundo a crença e imaginação populares, em resposta ao «puxar da corda», para pedir «casamento» o Santo exibiria a sua parte fálica às «mulheres velhas». Esta «imaginação» foi longe de mais, mas não tem nenhum fundamento real, pois o corpo da imagem é constituído por um tronco «único de madeira», sendo apenas móveis as mãos e a cabeça. O imaginário popular cria as suas imagens, pondo-lhe adereços, que primeiro concebe e projecta sobre a sua própria cabeça. Em pensando que era falta de fé, aquele pobre homem insistiu em puxar a corda, como quem estimula a virilidade. Talvez mais a sua, que a do santo. Estranha-se um pouco, até por ser do sexo masculino! Ou talvez não. 

Por uma corda ou por um fio?

Esta «insistência» da corda tem a ver com a «persistência» de elementos simbólicos da intimidade e da afectividade humanas, que, ontem como hoje, têm necessidade de se exprimir! E não resulta, chega mesmo a “quebrar”, quando se tenta reprimir em vez de guiar e conduzir, por caminho certo! A deriva cultural em que vivemos, em que o sentimento é a única corda que se puxa na relação entre pessoas, tem deixado muito boa gente na «corda-bamba», numa sensação de indecisão crónica, de incapacidade conjugal, ou de simples mal-estar afectivo, quando já não é, como o prometido, o tão propagandeado “desempenho sexual”. 

O tombo da imagem do São Gonçalo da Corda afigura-se aqui como metáfora da ruptura do Homem pós-moderno, que julgou valorizar o corpo ao pretender amar sem a alma. Quando a carga erótica não é mais suportada pelo desejo supremo do amor e se torna uma obstinada procura de si, está por um fio o nó cego de qualquer desventura amorosa. E restará à pessoa passar o resto da vida a tentar reunir os fragmentos da sua vida destruída.

Também aqui a designação e o patrocínio do «São Gonçalo, casamenteiro», ganha sentido e oportunidade. As causas do amor, do casamento, da família, ontem como hoje, são vitais à realização feliz da pessoa humana. Por isso, ele se nos afigura tão antigo e sempre novo!

São Gonçalo até pode dar-nos um jeitinho na superação do instinto até à elevação do amor se, em vez da força, ousarmos um pouco mais de imaginação e de seriedade no trato com a beleza e a santidade. 

Pe. Amaro Gonçalo
(Ex-Pároco de S. Gonçalo e São Veríssimo)

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