Para uma História da Vinha e do Vinho Verde em Amarante

Com uma ocupação humana a remeter para o Neolítico (7000 a. C), a cultura da vinha só seria uma realidade em Amarante, na Época Romana (Séc. I a. C – V d. C), facto que vai ao encontro da descrição de Estrabão (63/64 a. C) em Geografia, quando descreve os povos Galaicos, dizendo que estes, por terem falta de vinho, bebiam cerveja[1]. Estrabão deixa ainda evidente que os povos do Noroeste Peninsular não produziam vinho, embora o obtivessem esporadicamente em contactos com o Mediterrâneo.  

Do período Romano, embora careçam os vestígios associados à produção de vinho, encontram-se com alguma frequência, ânforas, bilhas e copos que confirmam o seu consumo. Aliás para a sociedade romana, o vinho e o acto de o beber era uma demonstração de superioridade cultural ou de civilização, face a outras suas contemporâneas. 

Deste período ou do seguinte (Idade Média), conhecem-se, no Concelho de Amarante, alguns exemplares de lagares escavados na rocha que se localizam em meias vertentes e nas imediações de estabelecimentos agrícolas romanos como, por exemplo, casalibus (casais) ou villae (quintas). Servem de exemplo, os lagares escavados na rocha de Coura (Vila Caiz), Ataúdes (Madalena), Pedreira (Lufrei), Entre-Águas (Vila Chã do Marão), Espanha (Figueiró), Tapado e Saída (Gondar). Em Lufrei e Gondar, viriam a surgir, na viragem da Alta para a Baixa Idade Média, instituições monásticas[2].   

À medida que a Idade Média avança, a cultura da vinha ganha mais expressão e a produção de vinho torna-se cada vez mais rentável em resultado dos progressos técnico-científicos desenvolvidos e implementados pelos monges, designadamente, e, para o caso amarantino, os das Ordens de São Bento e de Santo Agostinho. Estas comunidades religiosas dedicavam parte do seu dia ao estudo, entre outras áreas, das Ciências Naturais que posteriormente experimentavam nas suas actividades agrícolas”.  

Apesar da importância do vinho enquanto elemento cultural e civilizacional, este adquire uma nova conotação com a difusão e a implantação de comunidades cristãs na Hispânia, que terão impulsionado ainda mais a sua produção, a fim de satisfazerem a sua necessidade para uso ritual ou litúrgico. Somente o vinho remanescente se destinava para o consumo às refeições ou em festividades. Daí que muitas das melhores e mais extensas vinhas, e também as mais antigas, são plantadas junto a mosteiros e igrejas, seguindo-se, depois, as de Casas Senhoriais. 

À medida que a Idade Média avança, a cultura da vinha ganha mais expressão e a produção de vinho torna-se cada vez mais rentável em resultado dos progressos técnico-científicos desenvolvidos e implementados pelos monges, designadamente, e, para o caso amarantino, os das Ordens de São Bento[3] e de Santo Agostinho[4]. Estas comunidades religiosas dedicavam parte do seu dia ao estudo, entre outras áreas, das Ciências Naturais que posteriormente experimentavam nas suas actividades agrícolas.  

Na Época Moderna (Sécs. XVI – XVIII), desenvolvem-se muitos dos antigos domínios senhoriais, surgem novos, constituindo-se alguns em amplos morgados ou quintas, onde a vinha ocupa lugar de destaque sendo, em muitos casos, a cultura principal como confirmam os registos das Memórias Paroquiais de 1758.

Após a demarcação da Região Vinhateira do Douro, em 1756, assiste-se a um novo fomento da cultura da vinha, no entanto, parte do vinho produzido para além do autoconsumo ou da comercialização nos mercados locais, era transformado em aguardente vínica destinada ao enriquecimento dos vinhos do Douro e assim dar origem ao afamado Vinho do Porto. Entre outras, esta terá sido uma razão para o traçado da nova estrada de Mesão Frio. Estrada que viria a ficar conhecida por Estrada da Companhia e na actualidade por Estrada Pombalina, por ter sido construída durante a chancelaria de Sebastião José Carvalho e Melo, Marquês de Pombal. 

Ao longo da nova via foram construídas algumas estalagens, tanques e fontes para dar apoio aos comerciantes e às bestas que transportavam o vinho ou a aguardente de Amarante até à Região do Douro e no sentido contrário, para o transporte do Vinho do Douro, quando a viagem não era viável pela via fluvial, até Vila Nova de Gaia.  

Lagares escavados na rocha

Esta situação manteve-se praticamente inalterada, até aos finais do Século XIX, mais concretamente, até à realização da Primeira Exposição Universal de Paris, em 1855. Neste certame estiveram representados alguns Vinhos de Amarante, no entanto, desconhece-se quem esteve envolvido na sua promoção. 

A 13 de Maio de 1844, nasce D. José Taveira de Carvalho Pinto de Menezes, uma das personalidades amarantinas pioneiras no desenvolvimento e promoção do designado “Verde de Amarante”.

Em 1908, é demarcada uma nova região vitivinícola, a Região Demarcada dos Vinhos Verdes, que de lato modo corresponde a todo o Noroeste de Portugal, do Rio Minho ao Douro e do Oceano Atlântico às Serras do Gerês, da Cabreira e do Marão. Dentro desta grande região, foram ainda criadas várias sub-regiões, entre elas, a de Amarante, correspondente aos territórios dos Concelhos de Amarante e do Marco de Canaveses. 

José Taveira licenciou-se em Engenharia na Academia Politécnica do Porto, prestou serviço na Direcção das Obras Públicas da Guarda e, anos mais tarde, em Braga. Integrou ainda uma das brigadas para a construção dos Caminhos-de-Ferro do Douro. Durante o governo de Fontes Pereira de Melo, é eleito deputado por Amarante na Assembleia Constituinte, tendo ainda exercido, durante de 10 anos, a presidência da Câmara Municipal de Amarante.

 Em 1872, pede licença ilimitada e regressa à sua Terra Natal, onde passaria a dedicar-se por exclusivo à ampelologia. Em 1884, instala-se no Porto e é indicado para a Direcção Geral de Agricultura, com diversas comissões de serviço, tornando-se também no Presidente da Liga Antifiloxérica, da Brigada de Estudos da Região Duriense e Transmontana, funções que acumula com as da Direcção dos Serviços Ampelográficos do Reino. No decurso destas actividades constitui, em 1889, conjuntamente com sete vitivinicultores seus amigos, a Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal. 

Este notável amarantino viria a falecer no dia 31 de Janeiro de 1908, tendo deixado um vasto legado bibliográfico dedicado à vitivinicultura, nomeadamente, alguns estudos ampelográficos portugueses. 

Em 1908, é demarcada uma nova região vitivinícola, a Região Demarcada dos Vinhos Verdes, que de lato modo corresponde a todo o Noroeste de Portugal, do Rio Minho ao Douro e do Oceano Atlântico às Serras do Gerês, da Cabreira e do Marão. Dentro desta grande região, foram ainda criadas várias sub-regiões, entre elas, a de Amarante, correspondente aos territórios dos Concelhos de Amarante e do Marco de Canaveses. 

Com a constituição da região demarcada, a cultura da vinha inicia um processo de modernização a todos os níveis, que vão desde o cultivo e o cuidado com a vinha ao armazenamento, numa perspectiva que visa a economia de mercado e a qualidade dos vinhos produzidos, a fim de poder competir com os de outras regiões, entre elas, e talvez a mais importante, a do Douro. 

Neste período, há em Amarante um novo vulto que se destaca, António Joaquim do Lago Cerqueira, nascido na Casa da Calçada a 11 de Outubro de 1880. 

Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra, António do Lago Cerqueira destaca-se, após a Proclamação da República, no seio do Partido Democrático liderado por Afonso Costa. Viria ainda a ser eleito para o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Amarante e, anos mais tarde, deputado e Ministro dos Negócios Estrangeiros e do Trabalho. 

Com o golpe de Estado de 1926, Lago Cerqueira parte para Paris onde se instala, frequenta o curso de Vitivinicultura e Vinificação do Institut National Agronomique. No decurso da sua formação, profere algumas comunicações, entre elas, e talvez a mais importante, uma proferida em 1929, sobre o Vinho do Porto (Le Vin du Porto)

Anos mais tarde e de regresso a Portugal, decide implementar, nas suas propriedades, os conhecimentos adquiridos fundando as Caves da Calçada, instaladas nos pisos inferiores da sua casa. 

Os vinhos da Calçada, que se evidenciavam pelo gosto e apresentação em cuidada das garrafas e dos rótulos, eram bastante apreciados e exportados para França, Bélgica, África, América Latina e do Sul, na qual importa destacar o Brasil. 

“Parte do sucesso de Lago Cerqueira dever-se-á, em parte, às influências e contactos adquiridos no decurso das suas actividades políticas, no entanto, tal não pode ser encarado como um demérito dos seus vinhos, este facto só lhes acrescenta. António do Lago Cerqueira soube e bem, explorar um nicho de mercado, já de si muito competitivo e, com isto, projectar não só as suas caves mas também os demais vinhos da região”.

Das suas caves saíram as marcas: “Amarante”, “Casa da Calçada”, “Cuvée de Choix”, “S. Gonçalo”, “Getúlio Vargas”, “Clarete”, “S. Gonçalinho”, “Calçada Branco”, Calçada Rosé”, “Calçada Tinto”, “Calçada Brandy” e “Calçada Old Brandy”. Foram ainda produzidas as aguardentes: “Aguardente muito Velha”, “Aguardente tipo Fine Champanhe”, “Aguardente Fine Calçada” e “Aguardente Bagaceira”.

As suas modernas caves foram o sustento de muitas famílias amarantinas e, aquando da sua morte, ocorrida a 28 de Outubro de 1945, procedia-se a uma nova ampliação da adega, que já era vasta. 

Contudo, os Vinhos Casa da Calçada não podiam ser considerados vinhos Verdes por não serem produzidos a partir das castas recomendadas para a Sub-região de Amarante, pelo que a designação mais correcta seria a de Vinhos de Mesa. 

Parte do sucesso de Lago Cerqueira dever-se-á, em parte, às influências e contactos adquiridos no decurso das suas actividades políticas, no entanto, tal não pode ser encarado como um demérito dos seus vinhos, este facto só lhes acrescenta. António do Lago Cerqueira soube e bem, explorar um nicho de mercado, já de si muito competitivo e, com isto, projectar não só as suas caves mas também os demais vinhos da região.

Outras caves seguiram o seu exemplo, umas mais recentes, outras quase ao mesmo tempo que as da Casa da Calçada. Há ainda casos de caves que sobreviveram à voragem dos tempos e produzem vinho, desde a Fundação de Portugal como as Caves da Casa de Oleiros, por exemplo. 

Outrora integrada na parte rústica do Mosteiro Beneditino de Travanca e com uma orientação Este/Sueste, na Vinha de Oleiros produzem-se uvas de alta qualidade, das quais se obtêm vinhos brancos e tintos de reconhecido valor nacional e internacional.   

Outras Caves, as da Cerca, situadas na Quinta do Reguengo da Capela – Telões, fundadas em 1930, destacaram-se e ganharam notoriedade a nível nacional e internacional com a comercialização de vinhos, aguardentes e brandies. Das suas marcas, importa referir: “Conde de Amarante”, “Ponte de Marante”, “Caves da Cerca”, “Ouro Verde” e “Tâmega”.

Anos mais tarde, a 18 de Outubro de 1958, é instituída a Adega Cooperativa de Amarante, em resultado da cooperação de 42 pequenos e médios produtores locais. Na Adega Cooperativa de Amarante engarrafam-se vinhos brancos, tintos e rosés de excelente qualidade, comercializados com a marca “Adega Cooperativa de Amarante”. 

Com a entrada de Portugal para a UE, à data CEE, muitas das Caves e Quintas de Amarante procuraram modernizar-se e assim fazerem frente às novas exigências de uma economia de mercado à escala europeia. Parte deste processo, só foi possível com recurso aos múltiplos quadros de financiamento comunitário. 

Na Casa de Cello – Mancelos, por exemplo, foi reorganizada toda a estrutura existente com o objectivo de implementar as melhores tecnologias vitícolas e enológicas de forma a potenciar a expressão dos seus terroirs nos vinhos criados. Detêm as marcas “Quinta de Sanjoanne” e “leiras Mancas”. Na adega da Casa de Laraias em Travanca, o procedimento foi semelhante. Nesta adega são comercializadas as marcas: “Casa de Laraias”, “Casa de Laraias – Alvarinho” e “Casa de Laraias – Avesso”.  

Actualmente as caves e adegas procuram inovar, surpreender, marcar pela diferença e assim conquistar novos mercados e proporcionar aos seus clientes experiências, por vezes, associadas à hotelaria ou a actividades lúdico-recreativas e de bem-estar. Os cuidados ambientais ou a produção sustentável parecem estar também presentes em algumas das adegas desta sub-região com a produção de vinhos biológicos ou a eliminação de sulfatos e pesticidas de origem química.  

Na Sub-região de Amarante, inúmeras são as quintas e adegas que no seu dia-a-dia, trabalham com afinco na senda do melhor vinho numa conciliação constante entre a tradição e o progresso.

Ao longo deste artigo citaram-se apenas algumas caves, das muitas que existem na região, não houve qualquer intenção em valorizar ou publicitar umas em detrimento de outras. A única pretensão foi apenas a de querer demonstrar o processo Histórico com exemplos locais. 

Em homenagem a todos os produtores do néctar dos deuses de Amarante, finaliza-se esta breve nota com as palavras e a arte de Teixeira de Pascoaes: 

“Setembro da Abundância… / Velhice que parece nova infância. / São Miguel das vindimas, sol divino, / Negros frutos do / néctar purpurino. / Ó sangue vivo, em flor, / Pintando as mangas da camisa ao lavrador / E os seus lábios que ficam a sorrir… / Lagares a ferver, vermelha espuma a abrir, / E que bom cheiro a mosto,/ Luz de perfume, espírito, embriaguez, / Esparso e alado gosto, / Almas de bacanais, em sombra e palidez”.

[1] – “E utilizam também cerveja, mas têm falta de vinho: o que arranjam, todavia, depressa o consomem, banqueteando-se com os parentes.”
[2] – Todos os exemplos citados carecem de trabalhos arqueológicos sustentados.
[3]- Recorde-se que em Amarante foram fundados 3 mosteiros beneditinos, o Mosteiro de Travanca, o de Lufrei e o de Gondar. 
[4]- Designadamente os Mosteiros de São Marinho de Mancelos e do Divino Salvador de Freixo de Baixo. 

Bibliografia: 
Estêvão, José; Quintas do Vinho Verde; Porto; Lello & Irmão Editores, Artes Gráficas; 1995.
GOMES, Paulino (coord.); Amarante – Uma Ponte Entre a História e a Natureza; Paços de Ferreira; Anégia Editores;1997.
Pinto, Fernando Maia(dir); Memória da Terra do Vinho; Régua; Museu do Douro; 2008.
Pinto, Pedro Alves; António do Lago Cerqueira. Biografia; Amarante; Mota & Ferreira, LDA; 2004.
Reis, José Luís; A Região demarcada dos Vinhos Verdes; Porto; Comissão de Vitivinicultura da Região dos Vinhos Verdes; 2002.
Reis; José Luís, Catálogo de Marcas da Região dos Vinhos Verdes; Porto; Comissão de Vitivinicultura da Região dos Vinhos Verdes; 2002.
SOUSA; Bernardo Vasconcelos e (Dir.); Ordens Religiosas em Portugal: Das Origens a Trento – Guia Histórico; Lisboa; Livros Horizonte; 2006.
Rota dos Vinhos Verdes; Direcção da Rota Verde; Uniarte; 2003(catálogo, roteiro).

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