As mortes de civis na II Invasão Francesa: uma tragédia esquecida!

À época da segunda invasão francesa (1809), enquanto milhares de soldados morriam em combate contra os exércitos franceses, muitas outras mortes, civis, ocorriam bem longe dos campos de batalha.

Hipólito Barreto de Souza, 77 anos, “foi morto por baionetas e espadas” em Madalena. Dois dias depois, o doutor João Cerqueira Pinto, de 90 anos, “morreu queimado em sua própria casa”, na rua de São Pedro, vila de Amarante. Em Chapa, Jacinto Teixeira foi morto “à sua porta com um tiro que lhe deram na cabeça”. Antônio José Pereira, de Vila Garcia, foi assassinado “em sua própria adega e sepultado junto à sua casa”. Dias antes, José Maria das Neves, também de Vila Garcia, já havia sido morto, baleado “à porta da igreja desta freguesia”. E a viúva Thomásia e seu filho Antônio, menor, ambos de Amarante, morreram no rio Mendes, enquanto fugiam.

Hipólito, João, Jacinto, António José, José Maria, Thomásia e o menino António são apenas algumas das vítimas que, em abril e em maio de 1809, pereceram durante a invasão francesa nas freguesias que hoje constituem o concelho de Amarante. A historiografia sobre a época é pródiga ao lembrar a heróica defesa da ponte e os 211 militares que tombaram em combate. Mas os livros pouco informam sobre moradores locais: 250 civis que, de armas na mão ou como mártires indefesos, foram vítimas da violência do invasor. Sua tragédia, de certa maneira, também foi uma vítima – do esquecimento dos historiadores.  Os nomes destes civis, porém, foram assinalados em registos paroquiais.

Os registos informam o nome completo, lugar de nascimento, de moradia e estado civil. Em alguns casos, como nos citados acima, informa-se também as condições em que as vítimas foram mortas “pelos inimigos franceses”, como se escrevia à época. Alguns dos livros de óbitos podem estar incompletos, e em oito das freguesias não há registos disponíveis – fazendo supor que o número de mortos, portanto, possa ter sido ainda maior. 

De entre os 250 nomes, constam 40 mulheres e um menor. E também seis milicianos locais – mas, vale lembrar, até bem pouco antes da invasão dos franceses também eles eram civis, provavelmente camponeses que, armados à pressa, se juntaram às milícias que combateram em Amarante. Tratava-se de regimentos formados em concelhos próximos – Basto, Braga, Canaveses, Chaves, Gestaçô, Guimarães, Lamego, Miranda e Vila Real. À época, não havia um regimento de milícia nem na então Vila de Amarante e nem nas freguesias que hoje compõem o concelho. E, ademais, a compilação considerou todos os moradores destas freguesias que pereceram durante a invasão.

OS GUERRILHEIROS, CAÇADORES E CAÇADOS

A célebre batalha pela ponte de Amarante, como se sabe, chegou ao ápice no dia 2 de maio, quando os franceses conseguiram atravessá-la, fazendo os portugueses recuarem após duas semanas de resistência. Senhores das duas margens do Tâmega, os invasores seguiram cometendo atrocidades até o dia 12, quando finalmente foram expulsos. Mas as mortes de civis nas atuais freguesias amarantinas não durou apenas estes 10 dias. Havia, na verdade, começado 40 dias antes, ainda em princípios de abril.

Os franceses queriam chegar a Trás os Montes, para se unirem a tropas aliadas. No dia 31 de março ocuparam Penafiel, uma cidade abandonada. Mas logo o cenário iria mudar: “No dia 3 de abril, (…) nossos bivaques de Penafiel foram atacados por um forte contingente de reconhecimento, vindo de Amarante. O inimigo foi empurrado e perseguido até aos montes vizinhos”, contou o oficial francês Joseph Jacques (visconde de) Naylies. 

Segundo ele, no dia seguinte outros 600 “paisanos” (civis, talvez milicianos) da região voltaram a atacar: “Graças aos rochedos e às plantações de oliveira, eles se esgueiravam perto do nosso acampamento e atiravam nas nossas barracas e sobre nossos cavalos”. O oficial informa ainda qual era o espírito desses “guerrilheiros” portugueses: “Eles tinham fanatismo até mesmo ao ponto de entregar-se a uma morte certeira, desde que pudessem matar um francês. (…) Nós os matámos em grande número. Os demais, longe de serem intimidados, só ficaram ainda mais furiosos”, relatou o visconde.

Os ataques dos civis e milicianos eram movidos muito mais pela coragem que pela estratégia militar. E também devido a uma habilidade dos camponeses: “São tão destros caçadores (…) estão acostumados a atirar com bala (…) aos lobos, aos porcos monteses (…) Razão porque, quando viam algum francês a descoberto, logo muitos encaravam com ele, atirando-lhe com ponto e mira. E, por isso, caiam como perdizes”, narrou o padre Francisco de Alpuim Cerqueira Menezes, testemunha da invasão.

Após um primeiro combate em Vila Meã, no dia 17 de abril, o general Silveira, comandante dos portugueses, lançou um ataque sobre Penafiel a partir de Amarante. Os franceses contra-atacaram e fizeram-nos recuar até Fregim. Reforçados por tropas que chegavam do Porto, os invasores conseguiram chegar à então Vila de Amarante, mas sem conseguir transpor a ponte. Soldados franceses e portugueses permaneceram separados pelo rio durante 15 dias, duas semanas de terror para os poucos moradores da margem direita do Tâmega que não puderam ou não quiseram deixar suas terras. Os que ficaram escondiam-se nos montes. Enquanto isso, Vila Meã, Manhufe e Pidre, além da própria Vila de Amarante, foram destruídas pelo fogo. Outras freguesias, como Fregim e Telões, foram duramente saqueadas e incendiadas. Em busca de mantimentos, os franceses faziam incursões diárias pela região – e, em cada uma delas, deixavam mais vítimas.

“Nós vivíamos do que conseguíamos tomar dos civis, refugiados nos montes, e não sabíamos o que comeríamos no dia seguinte”, contou o visconde de Naylies, explicando que, pior que a fome era enfrenar a resistência dos civis remanescentes: “Enquanto nossas provisões estavam acabando, sabia-se que não podíamos procurar outras senão ao preço do sangue de um de nós”, afirmou. Segundo ele, constantemente as patrulhas francesas precisavam ir cada vez mais longe em busca de comida, nas plantações: “Os moradores nos observavam a uma certa distância e se escondiam nas colheitas, até que tivéssemos recolhido e embalado a provisão do dia. 

Mas assim que montávamos em nossos cavalos para retornar, éramos assaltados de todos os lados por um chuvisco de tiros de fuzil”. A resistência dos camponeses provocou a reação dos invasores: “Nossos soldados sacrificaram sem piedade todos aqueles que pegavam. Para se vingar, incendiavam os vilarejos, demoliam o que havia escapado das chamas e destruíam tudo o que poderia ser de alguma utilidade”. Segundo Naylies, neste momento os caçadores portugueses transformavam-se em caça: “Corria-se atrás de um habitante como atrás de um animal feroz, e os soldados, quando avistavam um, gritavam-se sacando de seus fuzis: ‘Olhe lá um homem!’ E metiam-se em sua perseguição até que ele fosse morto”, narrou o francês. 

Mas nem por isso, ele destacou, a resistência destes poucos civis portugueses esmoreceu: “Eu vi um deles, com a perna quebrada. Ele caiu sem abandonar sua arma e teve ainda a coragem de enfrentar e matar um brigadeiro do meu regimento. Eu vi, numa outra ocasião, um velhote de cabelos brancos, entrincheirado atrás de um rochedo, com um fuzil de dois tiros, armado de uma baioneta, ferir três homens e cinco cavalos. Ele não quis se render”, lembrou o visconde. Tomás de Santa Teresa, autor da época, confirma, entre o irônico e o amargo, que àquela altura a grande “distinção” dos soldados franceses foi mesmo caçar nos montes “uns oito velhos estropiados que foram mortos com barbaridade”.

VÃO-SE EMBORA, OS DEMÓNIOS

O exército português lançou o contra-ataque em 10 de maio e bateu os invasores. Derrotados e ameaçados de cerco, os franceses começaram a se retirar. Mas nem por isso abriram mão de novas atrocidades contra os civis, agora na também na margem esquerda do Tâmega: “Nesta precipitada fuga, o inimigo encontrou muitos paisanos descuidados pela mata da Reboreda, porque tinham ignorado a passagem deles (dos inimigos) para Mesão Frio. E todos eles, clérigos, mulheres crianças e velhos foram vítimas de sua crueldade”, ressaltou Menezes. Com efeito, os registos paroquiais de Gondar, Bustelo, Carneiro e Carvalho de Rei assinalam, entre os dias 11 e 12 de maio, as mortes de 47 pessoas, das quais cinco mulheres e um padre – além de um outro clérigo, de Jazente. Detalhe agravante: os assentos, feitos num tempo em que os costumes da religião impunham crenças para a salvação da alma, informam que a maioria das vítimas foi sepultada “sem sacramentos”, nos sítios onde morreram, em campos e montes, dadas as dificuldades de trazer seus corpos aos cemitérios junto às igrejas.

Para a retirada, os franceses dividiram-se em duas colunas. Uma marchou para Penafiel e outra para Guimarães. Naylies estava na retaguarda desta segunda e lembra como os soldados foram fustigados até ao último momento. Diz ele, sobre seu regimento: “Era continuamente assaltado pelos civis, que se escondiam perto da estrada e vinham atirar em nós. Se um infeliz soldado ficava para trás, era massacrado. Esses horrores eram punidos por outros horrores. De vilarejo em vilarejo nós provocávamos incêndios”, confessou o francês. Perto da Lixa, ele recordou, “dois soldados de infantaria doentes não podiam mais continuar. A retaguarda quis fazê-los montar a cavalo para os salvar. Eles estavam tão desesperados de cansaço que recusaram. Encontrados logo pelos civis que nos perseguiam, foram jogados vivos, sob nossas vistas, em meio às chamas”.

Tomás de Santa Teresa esteve em Amarante quatro meses após o fim dos combates. Conversou com os moradores e constatou que, para muitos, de fato, o ódio pelo inimigo havia mesmo sido maior que o medo: “’Eu’, dizia um, ‘estava naquele monte quando vi arder minha casa. Não me importou nada com isso. E até gostei que ela ardesse por ter sido o quartel daqueles demónios’. ‘Eu’, dizia outro, “antes queria ver toda esta vila arrasada e salgada do que ser francês. Estar sujeito a eles é o mesmo que estar sujeito aos demónios’”. Tomás ainda observou o testemunho de um outro morador: “Forçam as nossas mulheres, as nossas filhas, e até as matam à nossa vista, pois matar uma criatura é para eles um divertimento’”. Menezes foi da mesma opinião: ““É certo que pelos lugares onde chegaram foram conforme o seu costume fazendo vítimas do seu furor e de sua crueldade, velhos, crianças e mulheres”.

Amarante, “antes de ser reduzida a cinza contava então com 2.752” almas, segundo Menezes. “Não fora exagerado quem pôs em 1.300 o número de casas que foram queimadas e até meia légua (aproximadamente três quilometros) em torno dessa vila”, avaliou Tomás. Na margem esquerda, por exemplo, “Ovelhinha foi reduzida a cinzas”, testemunhou Menezes. E na margem direita, os moradores de Manhufe, Vila Meã e Pidre, sítios onde ocorreram os primeiros combates e incêndios, continuaram sofrendo mesmo após o fim dos combates. Tomás de Santa Teresa, pouco mais de três meses após a partida dos franceses, testemunhou: “Os seus pobríssimos habitantes (…) hoje andam expostos à mais rigorosa mendicidade, pois que têm de pedir esmola”. Em Fregim, os assentos paroquiais iriam constar a morte de 47 crianças no mês de junho, provavelmente porque as condições de vida nesta freguesia, tal como em outras tantas, haviam se tornado bastante difíceis.

Fossem crianças, idosos, padres, milicianos, homens e mulheres, o fato é que a violência da invasão não fez distinções. Decerto são justas todas as homenagens aos militares de outros concelhos, mortos nos 14 dias de combate na ponte. Mas, a partir da compilação dos registos paroquiais, a historiografia talvez possa relembrar os 250 civis das freguesias amarantinas, mortos ao longo daqueles 40 dias. Muitos pereceram porque não puderam ou não conseguiram fugir dos soldados do “melhor exército do mundo”. Outros tantos, justamente porque quiseram combatê-los. Em um e outro caso, porém, foram vidas que já deveriam ter saído dos registos antigos – para entrar na memória de Amarante.

Óbitos de civis durante a invasão francesa, em abril e maio de 1809, nas freguesias que hoje compõem o Concelho de Amarante

Aboadela, Sanche e Várzea, 6; Amarante (são Gonçalo), Madalena, Cepelos e Gatão, 33; Ansiães, 04; Bustelo, Carneiro e Carvalho de Rei, 17; Figueiró (Santiago e Santa Cristina), 06; Fregim, 20; Freixo de Cima e de Baixo,11; Gondar, 30; Jazente,15; Lomba,10; Louredo, 9; Mancelos, 29; Rebordelo, 2; Salvador do Monte, 12; Telões, 22; Travanca, 4; Vila Caiz, 2; Vila Chã 5; Vila Garcia, Aboim e Chapa, 11; Vila Meã (Real, Ataíde e Oliveira); 12

Eduardo de Oliveira é Jornalista e Investigador brasileiro

CONTINUAR A LER

Deixe um Comentário

Pode Também Gostar