Ainda os passes para deficientes: APD desvaloriza falta de acesso de deficientes motores aos transportes públicos

Em 14 de fevereiro, AMARANTE MAGAZINE deu conta, citando uma nota de imprensa do Município de Amarante, da criação de um “passe gratuito para cidadãos com incapacidade igual ou superior a 60 por cento, válido em toda a rede municipal, incluindo os transportes urbanos VIA”. Sem pôr-mos em causa o eventual mérito da medida, questionámos, na altura, a sua aplicabilidade, perguntando se os autocarros que iriam ser usados estariam preparados para, por exemplo, transportar cidadãos com mobilidade reduzida que se fizessem transportar em cadeiras de rodas.

Entre outras fontes que contactámos e a quem pedimos uma opinião sobre o assunto, inclui-se a delegação de Amarante da Associação Portuguesa de Deficientes (APD), cujo Presidente considerou pertinentes as questões que lhe colocámos, referindo, no entanto, que, em breve, não ele, “mas toda a Direção pronunciar-se-ia”.

A 24 de fevereiro, recebemos o texto que se segue da delegação da APD de Amarante, que agora publicamos.

“Sabemos que há pessoas com mobilidade reduzida, não sabemos é quantas”

A APD preocupa-se com as questões da mobilidade e necessariamente na possibilidade de acesso a pessoas com deficiência ao transporte público. No entanto, importa que a deficiência ou incapacidade seja percebida no seu real sentido, lato, que vai muito além das pessoas que tenham mobilidade reduzida.

O Município incluiu como medida, no início deste ano no âmbito do Part a gratuitidade para o transporte de pessoas com deficiência, com um grau de incapacidade igual ou superior a 60%, certificada por Atestado Médico de Incapacidade Multiusos.

Segundo os dados que a APD possui, haverá em Amarante cerca de 3000 pessoas com incapacidade igual ou superior a 60%. Destas a APD não tem dados oficiais para saber quantas têm mobilidade reduzida ou condicionada ao ponto de usarem cadeira de rodas. Sabemos que há pessoas com mobilidade reduzida, não sabemos é quantas.

Como é do conhecimento publico, pessoas com incapacidade igual ou superior a 60% incluem-se, muitos tipos de incapacidades nomeadamente com deficiências visuais, doenças oncológicas, etc. A APD reuniu com o Município tendo sido apresentada a medida e debatidas as vantagens e eventuais constrangimentos da sua implementação.

Foi transmitido que a linha Via-Hospital e o percurso entre o Terminal Rodoviário e a Estação de Vila Meã estão a ser operados por autocarros com plataforma o que permite a utilização por pessoas que utilizem cadeiras de rodas.

Quanto às demais carreiras encontra-se articulado com os operadores, que não têm neste momento autocarros com plataforma rebaixada para colocar em todas as linhas, a possibilidade de, considerando as limitações de frota que possuem, nas linhas onde se verificar essa necessidade concreta trabalhar no sentido de a suprir.

As pessoas que utilizam cadeira de rodas fazem parte de um grupo alargado de pessoas com incapacidade que podem beneficiar da medida e que caso o Município não a implementasse por não haver resposta total para as pessoas com cadeiras de rodas ficariam excluídas.

A APD entende que a medida representa um apoio às pessoas com incapacidade, não sendo ainda a resposta perfeita porque o ideal seria que todas as linhas fossem operadas por veículos que pudessem ser utilizados por todas as pessoas com incapacidade mas é já um passo importante.

 

Nota da Redação

Em comentário que publicou no Facebook, o Sr. Presidente da delegação de Amarante da APD acusou AMARANTE MAGAZINE de “desonestidade intelectual”, por termos publicado um texto de Rosa Lemos antes do seu! Deixamos o insulto com quem o pratica e seguimos em frente, dizendo o seguinte.

1.O Sr. Presidente da APD diz que existem em Amarante cerca de 3 000 deficientes (este número foi avançado por AMARANTE MAGAZINE em 2016), mas a sua associação não os consegue caracterizar por deficiência. “Sabemos que há pessoas com mobilidade reduzida, não sabemos é quantas”, escreveu. Ora, aqui está um trabalho que a APD de Amarante poderia fazer, já que não se lhe conhece atividade relevante.

2. No esclarecimento que nos enviou, o Presidente da APD de Amarante manifesta um completo desconhecimento das (inexistentes) condições de transporte de deficientes em Amarante. Mas mostra também ausência de um mínimo de sentido crítico e constitui-se, mesmo, como câmara de eco. Por isso, faz afirmações que não correspondem à verdade. Se, depois da reunião que diz ter tido, se tivesse dado ao trabalho de, como fez AMARANTE MAGAZINE, viajar, por exemplo, nos autocarros que fazem a ligação a Vila Meã, saberia que os deficientes motores que se deslocam em cadeira de rodas e outros cidadãos com mobilidade reduzida, como é o caso dos idosos, não têm acesso a esses autocarros, por indisponibilidade de plataforma elevatória ou rampa de acesso.

3. Há períodos do dia em que, de facto, a viagem entre o Terminal Rodoviário do Queimado e a estação de Vila Meã é feita por um autocarro que está dotado de plataforma elevatória (não era, à data da nossa viagem, o caso da  carreira que parte do terminal do Queimado às 6:40). Mas o caricato vem depois e a estória é esta: aquele veículo (na foto) está a fazer o percurso Amarante-Vila Meã por mero acaso e, segundo uma fonte por nós consultada, trata-se de um autocarro para “fins especiais”. Isto é: excursões, apoio a eventos, alugueres, etc. e só nesses casos é que é usada a plataforma elevatória. Em carreiras regulares, não! De resto, o uso da plataforma implica a retirada dos últimos bancos traseiros do autocarro e eles estavam lá aquando da nossa viagem. Mais: a AMARANTE MAGAZINE foi dito que, mesmo que a plataforma funcionasse, “não haveria tempo para acomodar” deficientes motores em cadeiras de rodas, pois as paragens para a tomada de passageiros são muito curtas!

4. Quanto aos transportes urbanos VIA, nenhuma viatura está preparada para transportar cidadãos com mobilidade reduzida, o mesmo acontecendo com outros autocarros que integram a chamada “rede municipal”.

5. Resulta daqui que os deficientes motores estão (pelo menos para já) excluídos do “passe gratuito para cidadãos com incapacidade igual ou superior a 60 por cento, válido em toda a rede municipal, incluindo os transportes urbanos VIA”.

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