Confeitaria Lailai: a arte dos sabores doces

De portas abertas para a rua 31 de Janeiro e varanda sobre o rio, a confeitaria Lailai é, porventura, a mais conhecida casa de Amarante, rivalizando em fama com o convento e ponte de S. Gonçalo.

O motivo é só um: ali se vendem, desde há 49 anos, os melhores doces da cidade, de receitas únicas e inalteradas, reminiscências de gostos conventuais cultivados no antigo Convento de Santa Clara – lérias, papos d’anjo, foguetes, brisas do Tâmega… Apreciados por gente com preferências de requinte, ofertados por amantes, almas enamoradas ou marialvas.

A confeitaria tem o nome da dona, Maria Adelaide da Fonseca, 82 anos, cabelo grisalho, olhos claros, bonitos, numa face alva a que algumas rugas dão um toque de encanto. Muito activa (que é isso da idade?!) D. Lailai continua a comandar a cozinha, gerindo bem os seus segredos de mestra de delícias muitas. Segredos que, em tempos, lhe confiou uma amiga de seu falecido marido, feitos sobretudo de amêndoas e ovo e que apenas as suas mais próximas colaboradoras conhecem. Abriu, há alguns anos, uma excepção para Manuel Luís Goucha (o cozinheiro da TV), a quem ensinou a fazer torta de frutas, uma criação sua, mas desconhece os resultados por ele obtidos.

Para D. Lailai tudo começou aos 23 anos, trabalhava então no restaurante de seus pais, “Zé da Calçada”, onde ajudava no serviço de cozinha. Um sábado, indo às compras ao mercado, encontrou uma mulher do campo chorando desesperada por, em consequência de uma queda, ter partido os ovos que levava para vender, 10 dúzias ao todo.

Condoída, D. Lailai tenta consolar a mulher, dizendo-lhe que se há de arranjar uma solução para não chegar a casa sem dinheiro. Conduz a aldeã ao restaurante, mata-lhe a fome com duas sandes de vitela assada e pede à mãe cinquenta escudos emprestados, com os quais compra os ovos partidos.

Na posse da “amálgama” adquirida, questiona-lhe um destino, e não tarda em decidir-se por confeccionar doces, usando velhas receitas que seu marido conseguira. Com a cumplicidade da mãe, Lailai põe à venda, ao balcão do restaurante, no dia seguinte, domingo, os doces feitos. E, para sua surpresa, ao fim da tarde nem um só restava. Era Inverno, havia neve no Marão e os visitantes juntavam aos deleites do espírito os prazeres do sabor.

Grata com a experiência, Lailai continuou a confecção de doces para o “Zé da Calçada”, às vezes às escondidas do marido, enquanto alimentava o sonho de ter uma confeitaria. A sua realização chegaria em 28 de Março de 1945, quando a “Lailai” abriu portas.

Desde então não é possível quantificar quantas dezenas de milhar de dúzias de ovos ou de quilos de açúcar foram utilizados na “Lailai”. O que se pode afirmar – diz quem sabe – é a manutenção dos sabores de há 50 anos, apurados, porventura, e servidos com maior requinte, que os olhos também comem. E, ao longo dos tempos, a preocupação sempre presente dos ovos caseiros, de todo indispensáveis para doces como o pão-de-ló, as castanhas de ovos, as maçãzinhas, os bolinhos de amor, as trouxas ou os pingos. Ciosa da qualidade, D. Lailai chegou a ter 18 apanhadeiras por sua conta que, todas as semanas, às quartas e sábados, lhe faziam chegar, fresquinhos, os ovos.

Feitos com tamanhos mimos, não havia (não há) quem resistisse (resista) aos doces da Lailai. Pascoaes, por exemplo, era um seu indefetível e todas as semanas, às sextas-feiras, mandava um seu criado, com uma lata (que hoje faz parte do espólio do escritor), “pela encomenda”. 

O bom gosto do poeta era seguido por muitos ilustres do seu tempo e companheiros das letras, figuras da música e do teatro que pareciam beber inspiração nos saborosos doces da Lailai. Amélia Rey Colaço, ela própria, escreveu um dia de Paris a D. Lailai confessando o seu deleite e fraqueza de alma pelas delícias com que havia sido presenteada. Quem lhe fizera chegar os doces fora Lago Cerqueira, que pela atriz nutria simpatia e encontrava numa cesta de doces da Lailai, decorada com rendas de Veneza, celofane e uma laçada de cetim, a forma de se insinuar.

Muitos outros testemunhos do apreço pelo seu trabalho tem recebido D. Lailai, alvo também da curiosidade jornalística. Há uns anos, numas festas do Junho, decorou mesmo uma das montras da confeitaria com revistas que falavam de si e dos seus doces, muito apreciados também fora do país, designadamente no Brasil, para onde vão, amiúde, tortas de fruta que têm a particularidade de se conservarem vários meses.

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