O Governo e o “jornalismo de sarjeta”

Em 2007, Augusto Santos Silva, hoje Ministro dos negócios Estrangeiros e à data Ministro dos Assuntos Parlamentares com a tutela da Comunicação Social, teorizou, abundantemente, sobre “jornalismo de sarjeta”. E bem, em minha opinião. Caracterizou o produto e, nas entrelinhas ou mais ou menos subliminarmente, deixou implícito quais eram os média que o praticavam.

Fê-lo de forma polida, diria, mesmo, diplomática. Ao contrário de Cristiano Ronaldo que, não sendo (julgo eu) muito temperamental, em 2016, durante o Europeu de França, farto de jornalismo de sarjeta, arrancou das mãos de um repórter o microfone que ele transportava e atirou-o a um lago.

Mas, afinal, o que é o jornalismo de sarjeta? É o jornalismo sem regras, tablóide, sensacionalista, voyeirista, que espreita pelo buraco da fechadura, subserviente, selvagem, nivelado por baixo, especulativo, sensacionalista, enrolado com os poderes, que tem como fonte o boato, fazedor de “fake news”… (acho que Augusto Santos Silva subscreveria este parágrafo). E que, não obstante, tem, ao longo dos tempos, contado, entre nós, com a inação da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista e do Sindicato dos Jornalistas, entidades quase sempre remetidas ao silêncio (cúmplice?), ante as diatribes dos fazedores do dito jornalismo.

Adiante. O governo de António Costa, com o alto patrocínio do Presidente da República (desde há muito, aliás, a “reivindicar” apoios financeiros para a imprensa), acaba de distribuir 15 milhões de euros a fundo perdido aos média portugueses – a publicidade institucional, paga à cabeça, é um evidente eufemismo -, alegando haver, por parte dos média, perda de receitas de publicidade, de vendas em banca e de audiências (há estudos que dizem que nunca se consumiram tantos conteúdos de televisão como no período de confinamento).

“(…) o Observador e o ECO, não aceitaram o subsídio a fundo perdido (vulgo publicidade institucional antecipada) oferecido pelo Governo. O Observador teria direito a 90.500 euros e o ECO a 19.900 euros. Ambos discordaram da metodologia utilizada e alegaram falta de transparência no processo”.

Apoiar as empresas de média com os instrumentos ao dispor de todas as outras (lay-off, linhas de crédito a juros bonificado, moratórias em pagamentos, etc.), parece-me bem. Subsidiar a fundo perdido empresas de média é, do meu ponto de vista, questionável, já que, para além do mais, isso tende a criar, nas redações, inibição em relação aos governos e aos políticos e a isenção e a independência saiem a perder (como diria Manuela Ferreira Leite, “quem paga, manda”!).

Pior, contudo, é que o Estado, ao dar dinheiro aos média com base em critérios de circulação e audiências, privilegiando quem nivela por baixo, não distingue o bom do mau jornalismo; o jornalismo de qualidade do jornalismo de sarjeta; o bom do mau entretenimento; a boa programação, do lixo televisivo. Rui Rio acha, e bem, um escândalo que o Estado financie (a fundo perdido) o “Big Brother”. Ou os casamentos do(a) agricultor(a), acrescento eu. 

A pandemia da Covid-19 tem as costas largas. Para mim, é o cheiro a eleições (ou o medo delas) que justifica medidas como esta. Agora foi o governo, mas a receita vai chegar também às autarquias, que (vai uma aposta?), de uma forma ou de outra hão de arranjar maneira (muitas já o fazem) de injetar dinheiro em média locais, para os usarem como lavandaria até setembro/outubro do próximo ano.

Nota: dois jornais online, o Observador e o ECO, não aceitaram o subsídio a fundo perdido (vulgo publicidade institucional antecipada) oferecido pelo Governo. O Observador teria direito a 90.500 euros e o ECO a 19.900 euros. Ambos discordaram da metodologia utilizada e alegaram falta de transparência no processo. Os dois lançaram campanhas de assinaturas e pediram o apoio dos seus leitores.

CONTINUAR A LER

Deixe um Comentário

Pode Também Gostar