A nossa escola primária

Penso que será um ponto em comum para muitos de nós termos a memória de uma escola primária que conjuga duas experiências que podem ser definidoras para o percurso de vida: a entrada pelo mundo do Conhecimento (claro), mas também pelo da Democracia. Quantos de nós não votaram pela primeira vez na mesma escola primária em que estudaram?

Sendo certo que essa não foi, para mim, a única porta para conhecer o mundo e as coisas, é bem verdade que foi definidora. Muito por causa da Professora que teve a tarefa de me apresentar o universo das sebentas e dos manuais; dos lápis, das borrachas e dos “afias”. E de muitas outras coisas. Lembro-me bem da sensação tão boa de ir comprar o material e “encapar” os livros. Ficou-me para sempre e, ainda hoje, há poucos cheiros tão bons como o de folhear as páginas de um livro ou caderno novo. E, como aluna, fiquei a sentir as salas de aula como lugares de conforto. Sítios onde me sentia enquadrada.

Não foi só pelos conteúdos que a minha Professora foi definidora, ainda que saiba que a qualidade do ensino primário que tive marcou-me o futuro académico. Foi muito pela noção de compromisso: a ideia de responsabilidade e de ir para lá do que é obrigatório. Porque esta Professora não se ficava pelo manual: lembro-me muito bem das páginas e páginas de História de Portugal com letras azuis, reproduzidas com um mimeógrafo (acho que seria um mimeógrafo…). Foi assim que vivi as primeiras experiências de “investigação”, ao procurar informação fora dos livros escolares para complementar trabalhos de casa. Mas havia também um outro lado do compromisso: aquelas festas de final de ano, em que se dançava o Danúbio Azul e a música da “Fama”, com guarda-roupa de fazer inveja a qualquer produção teatral.

Se calhar foi por tudo isto (e por muito que fica por dizer) que, quando a minha Mãe e o meu Pai me levaram a votar pela primeira vez (coisa solene), achei aquela sala muito pequena. Tão pequena que teimei que tinham feito obras. Porque a minha memória era a de uma sala enorme. E perante a insistência dos meus Pais, que garantiam que tinha exatamente a mesma dimensão, saí e medi o comprimento do lado de fora com passos. Até, finalmente, ficar convencida de que aquele tamanho imenso imaginado era o de uma menina que lá chegou com 5 anos e nunca se sentiu confinada.

Hoje, 40 anos depois e num Mundo tão desafiado, penso que a sala de aula, o lugar em que tive o privilégio de experimentar a Educação e a Democracia, há-de ser o lugar onde a primeira terá de preservar a segunda. Parece-me cada vez mais claro que não será por coincidência, e não só por conveniência, que tantas mesas de voto são em Escolas.

A minha Professora Isabel já não dá aulas há algum tempo, claro. Mas diria que não saiu das salas de aula. Nas muitas por onde passei, pelo menos, esteve sempre presente. E em jeito de remate, termino à moda de outros tempos, quando escrevia para ela: “Estrada, quinze de abril de dois mil e dezanove”.

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