Os quatro órgãos de tubos de Amarante

São poucas as cidades com a dimensão de Amarante que se orgulham de possuir quatro órgãos de tubos, todos eles restaurados e operacionais. Este facto potencia o turismo cultural e religioso e pesou na decisão da UNESCO de atribuir à urbe, em 2017, a classificação de “Amarante City of Music”, passando Amarante a fazer parte da Rede de Cidades Criativas daquela organização. O padre José Manuel Ferreira admite que a existência daqueles quatro instrumentos em três igrejas da sua paróquia é “uma situação excecional”. 

Nas três igrejas de Amarante (S. Gonçalo, S. Domingos e S. Pedro) existem quatro órgãos de tubos, cada um deles com uma identidade distinta e uma estória para contar. O som portentoso destes aparelhos de sopro – descritos por Mozart como “o rei dos instrumentos” – é considerado como único na sua capacidade de se aproximar à voz humana e de “exaltar a palavra divina”. Contudo, as suas origens profanas, que se estendem à antiguidade grega, valeram-lhe a indiferença da igreja ao longo de muitos séculos.

Até à introdução, em finais do século VII, do órgão de tubos pneumático, o canto gregoriano seria a única forma de expressão musical permitida nas celebrações litúrgicas da igreja católica. O ancestral instrumento de sopro era, sobretudo, olhado com desconfiança pela maioria do clero, que considerava profanos tanto o instrumento como a sua música.

O órgão, tal como o conhecemos hoje, resultou de um longo processo de aperfeiçoamento do desenho da Flauta de Pã da antiguidade grega. A primeira adaptação ocorreu no século III AC, quando se substitui o sopro humano por um sistema hidráulico que, por sua vez, daria lugar aos foles, algures entre os séculos VI e VII DC, no império Bizantino.

Desaparecido da Europa por via das invasões bárbaras, o órgão reaparece em França em finais do século VI e o seu uso propaga-se por todo o continente. Contudo, dado o seu historial associado aos eventos pagãos dos Gregos, Romanos e Bizantinos, o instrumento é, durante quase toda a Idade Média, encarado com desconfiança pela Igreja católica.

Mesmo assim, o órgão de tubos introduz-se, timidamente, nos serviços religiosos de igrejas e catedrais europeias. No século XVI, é finalmente reconhecido pelo Concílio de Trento como um instrumento “capaz de se acomodar à voz humana e de exaltar a palavra divina”.

Apesar das muitas subsequentes normas que se impôs ao seu uso nas cerimónias religiosas, a verdade é que elementos pagãos, nomeadamente no plano das decorações, continuaram a decorar muitos dos instrumentos.

Em pleno período Barroco, o órgão assume-se como um dos principais protagonistas do templo, não só pela imponência acústica, mas também pela decoração, harmonia e até pela forma como ocupa o espaço.

O instrumento passou a ser elemento preponderante na celebração litúrgica, testemunho da capacidade do homem em fundir engenho e arte, promotor, através da sua portentosa sonoridade, de “uma maior aproximação a Deus”.

O órgão de tubos da Igreja de S. Gonçalo foi construído em 1766.

O BRILHANTE E LUMINOSO ÓRGÃO IBÉRICO. Do ponto de vista técnico, é possível perceber a eleição, por Mozart, do órgão de tubos como o “rei dos instrumentos”: graças à multiplicidade de corpos sonoros, o som que emana é o equivalente ao de centenas de instrumentos, que se multiplicam entre si para dar lugar a novas harmonias.

E cada instrumento tem a sua própria identidade sonora, caraterizada não só pelo seu desenho, materiais e técnicas de construção, mas também pelo espaço em que se insere e tudo o mais que o rodeia.

Na Península Ibérica, o desenho e construção de órgãos de tubos tomou o seu próprio rumo entre os séculos XVI e XVII, optando por, na sua maioria, a utilização de um único teclado manual (com exceções, contudo) e a eliminação de teclado de pés (pedaleira).

Para compensar, a disposição dos registos é “partida”, permitindo obter uma sonoridade numa parte do teclado e outra, diferente, na restante metade. Esta técnica impele a criação de um novo tipo de composição, o Tento de Meio Registo. De facto, a par da evolução do desenho do instrumento regista-se uma outra, na área da composição musical litúrgica.

Por todas estas particularidades – e mais algumas – o órgão ibérico sobressai pela acústica “brilhante e luminosa” e uma “multiplicidade sonora” que o coloca ao nível dos melhores instrumentos fabricados no norte da Europa.

OS QUATRO ÓRGÃOS DE AMARANTE. Para uma pequena cidade, como é Amarante, a existência de quatro órgãos de tubos é uma “situação excecional”, afirmou a AMARANTE MAGAZINE o pároco José Manuel Ferreira.

Segundo o clérigo, este facto resulta do estabelecimento, a partir da Idade Média, de várias ordens religiosas na cidade, nomeadamente Dominicanos e Clarissas, mas também de inúmeros padres diocesanos.

“De uma certa forma, havia alguma competição entre as várias ordens nos planos da arquitetura, do trabalho pastoral, da liturgia e, também, na área da música”, explicou.

Para além do imponente órgão barroco da Igreja de São Gonçalo, existem mais três instrumentos do género na cidade de Amarante, todos eles recentemente restaurados.

Com o restauro, “acresce a responsabilidade de lhes dar uso”, adiantou ainda o pároco de Amarante. Nesse sentido, os órgãos de tubos de Amarante são utilizados, regularmente, na liturgia e em eventos culturais da cidade.

A par de um ciclo anual de concertos, os instrumentos são peças centrais para a realização do Festival Internacional de Polifonia Portuguesa.

“Os melhores organistas europeus têm passado por Amarante, no âmbito do festival internacional. Isso dá uma outra projeção aos instrumentos, à igreja e à cidade”, sublinha José Manuel Ferreira.

Amarante é também casa para uma escola de música sacra, um estabelecimento de ensino que veio ao encontro da necessidade de “formar agentes pastorais para a música”, adianta o pároco. Os órgãos de tubos, nomeadamente o de São Gonçalo, são utilizados frequentemente no âmbito deste programa de educação musical.

“A escola de música cumpre a sua missão de formação, mas também dá a conhecer e a entender a música em si e este belo instrumento, que é o órgão de tubos”, conclui.

PORTATIVO DE PROCISSÃO. É único do seu género em Portugal e foi idealizado para uso em procissões e cerimónias ao ar livre.

PORTATIVO DE PROCISSÃO. É único do seu género em Portugal (em cima) e foi idealizado para o uso em procissões e cerimónias ao ar livre. O pequeno órgão foi projetado para dele se obter a maior quantidade de som possível, com um desenho de reduzidas dimensões.

Também conhecido como um “órgão positivo de procissão”, a sua construção data da segunda metade do século XVIII e terá sido seu autor Luís António de Carvalho, sucessor de Francisco António Solha, conceituado mestre organeiro galego radicado em Portugal e autor, entre outros, do órgão de São Gonçalo.

O instrumento de 47 teclas possui 10 tubos de madeira tapados e foi construído segundo as técnicas clássicas de organaria. Aquando do seu restauro, a equipa de trabalho descobriu que metade da tubaria original estava desaparecida e que a restante estaria cortada e trocada de sítio.

Do restauro resultou um instrumento musical que poderá ser único do seu género em Portugal, afinado com “um temperamento mesotónico perfeito”, especialmente apropriado para a música litúrgica portuguesa e espanhola” dos séculos XVI e XVII, escreve na ficha técnica a equipa de restauração. De salientar que este órgão foi reequipado com um sistema de ventilação elétrico.

 O ÓRGÃO QUE “FOGE” AO MODELO IBÉRICO. O órgão de tubos da igreja de São Domingos  integrou o espólio abrangido pela intervenção e recuperação, na íntegra, deste templo, concluída em finais de 2011.

O instrumento, que data de 1868, foi construído por José Joaquim da Fonseca, organeiro do Porto e autor de instrumentos presentes, hoje, em Oliveira do Douro e Foz do Sousa, entre outros.

De acordo com a ficha técnica da restauração, tem um sistema de tração de notas e registos mecânico e a sua conceção “foge” à tipologia de órgão ibérico, quer pela sua disposição, quer pela ausência de registos partidos.

O instrumento foi descrito, aquando do início do trabalho de reparação, como uma “catástrofe”: teclas partidas, fole roto e uma grande quantidade de tubos degradados ao ponto de terem que ser substituídos por réplicas. Idem para o teclado, igualmente substituído por um outro “feito de raiz”.

Tal como os restantes órgãos de tubos de Amarante, a ventilação pode ser gerada manualmente ou através de um sistema elétrico.

Órgão de tubos da Igreja de S. Pedro, o último dos quatro a ser restaurado, em 2015.

NA IGREJA DE S. PEDRO: O PEQUENO ÓRGÃO QUE PASSA POR GRANDE. O órgão de tubos da igreja de São Pedro (na página 7) possui um curioso detalhe: o armário que aloja o dispositivo principal está ornamentado lateralmente com flancos inclinados e uma série de tubos falsos que oferecem ao conjunto o aspeto de ser maior do que realmente é.

O instrumento faz parte do espólio deste templo que foi alvo de uma profunda intervenção de restauro, finalizado em 2015.

A sua data de construção e o seu autor são desconhecidos, pois a equipa de restauração não encontrou quaisquer sinais ou inscrições no aparelho. Na melhor das estimativas, poderá ter sido obra do organeiro Manuel de Sá Couto (1758-1837), natural de Santo Tirso.

NA IGREJA DE S. GONÇALO: UM EXEMPLO DA ARTE DO BARROCO. Esta verdadeira obra de arte (páginas 5 e 6) foi executada em 1766, pelo organeiro galego Francisco António Solha (1720-1794), responsável por, entre outros, a construção dos órgãos de tubos do Mosteiro de Tibães, em Braga, e do Mosteiro de Pombeiro, em Felgueiras.

Obra majestosa e imponente, sobressai-lhe o volume, a talha dourada e a profusa decoração da caixa. Apresenta 43 registos e é caraterizado pela planta trapezoidal, de três castelos, sendo o central mais elevado, com anjos musicais a decorar os laterais.

Foi alvo de uma profunda intervenção, entre 2008 e 2010, ao custo de 330 mil euros. Para além das reparações ao nível mecânico, o aspeto exterior do instrumento foi melhorado substancialmente, nomeadamente com a recuperação da talha dourada.

Com a sua restauração, o órgão ficou novamente funcional e é o instrumento musical utilizado nas cerimónias litúrgicas semanais da igreja de São Gonçalo bem como peça central de várias atuações de música sacra.

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